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domingo, 11 de novembro de 2007

Não Venham Mais Cinco

Já aqui não escrevia faz uns tempos. Ando a tirar o CAP, num emprego novo, enfim... Tanta coisa e tão pouco tempo. Mas sexta e sábado aconteceu um fenómeno fantástico que tenho de partilhar.
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Sexta feira, ao contrário do que sempre faço, decidi levar o carro para o trabalho. Apenas porque naquele dia pensei que terminaria as minhas actividades mais cedo. E assim chegaria a casa num instante. E lá fui eu.

Quando cheguei à zona do costume tentei encontrar um lugar para o carro. Havia apenas um sítio quase numa curva, e que tinha um pilar que dificultava o parqueamento. Mas eu com as minhas habilidades resolvi o problema colocando o carro ligeiramente no passeio. Dei uma volta ao carro e pensei: ninguém porá o carro no outro lado da estrada, pois isso seria mesmo lixado e o meu carro apenas se encontra 10 ou 15 centímetros para fora da estrada em relação a todos os outros carros na minha linha de carros.

Cumpri o meu trabalho como de costume. No meio da formação, já da parte da tarde, recebi um telefonema que não pude atender. Quando terminei a formação, que afinal acabará apenas por volta das 20 horas, liguei para o número de telefone.

Do outro lado uma voz disse: "Julga que eu lhe quero comprar o carro meu cabrão???" e pronto... Mais uns elogios e cumprimentos. E que eu não estava a perceber nada. E que o meu carro tinha impedido o seu camião TIR de entrar na rua. E que era todos os dias assim. E eu a pedir desculpa. E ele tal e tal elogio. E que tinham chamado a polícia (que não tinha sido ele), mas que estavam muitos carros atrás a buzinar.

Ora lá fui eu ver se tinha carro ou não. E não tinha! E fui à esquadra e que tinha sido rebocado para o Restelo. Mas que o carro estava bem estacionado - disse eu. Mas tem de falar lá no sítio do reboque - disse o polícia. E apanhei o autocarro e lá fui eu. E lá estava ele.

50 euros do reboque, 10 do parque e mais 30 de multa. Multa do quê? - perguntei eu. De impedir a passagem a veículos pesados. Quê? Que raio de multa é essa? Mas pronto tome lá 90 euros. (já vos disse que estou a tentar vender o meu carro?).

E vim para casa a pensar que azar!!!

Parei o carro no sítio do costume. Com o meu número de telefone nas janelas para promover a venda. E vim para casa.

Dia seguinte, ontem, sábado:

Eu e a Fran saímos de casa para irmos tratar das nossas coisas e dirigimo-nos ao sítio do costume. E o carro? - perguntam vocês e bem - O carro tinha desaparecido.

Nada de carro. Liguei para a polícia e fui à bomba. Ninguém sabia de nada. Pensei com o número de telefone no vidro só pode ter sido roubado. E eu que até o preferia era mesmo vender.

Entretanto da Polícia dizem-me: o seu carro foi rebocado, está no parque do da Polícia ao lado do Colombo. Porquê? - perguntei eu. Não sei, terá de perguntar lá! - respondeu o senhor agente.

Claro que o carro estava lá. Claro que eram dois polícias, mas só um fazia atendimento. Claro que estavam 3 pessoas à minha frente e que cada um demorava pelo menos meia hora.

Mas prontos. Cheguei à minha vez. Ah e tal e coisa, mas o que é que aconteceu. O seu carro foi rebocado hoje às 10:30 da manhã por denúncia de estar a fazer publicidade à sua venda. - disse um dos dois senhores agentes que me atenderam. Mas eu nem tenho escrito vende nem nada! - expliquei. Mas não interessa. - respondeu - E deve ter sido alguém de algum "stander".

Pronto! E quanto tenho de pagar? - perguntei. São 120 euros, 50 do reboque, 1o do parque e 60 da multa da publicidade. O quê???? 60 euros???? (Mas já vos disse que quero vender o carro?)

E pronto: 210 euros em dois dias. Só de festa, e álcool e miúdas. Só coisas divertidas e boas. Ainda não fui ver se o carro estava lá hoje, mas espero que sim.

Dois dias, carro bem estacionado, condutor cumpridor e cuidadoso: 210 euros!

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Lâmpada de Aladino ou Cuidado Com o Que Pedes

Há um ditado português que diz qualquer coisa do género: “Quando Deus nos quer castigar, dá-nos o que lhe pedimos.”, e a vida vai-nos provando o poder da sabedoria popular.

Por outro lado, numa das correntes mais populares da Lei da Atracção insiste-se para se pedir ao universo aquilo que se quer, como se fosse a lâmpada do Aladino, e sem nos preocupar-mos com os limites e quantidades do número de pedidos.

Ainda há poucos dias, num passeio turístico entrámos numa capela para a visitar, e como sempre acontece aproveitámos a oportunidade para fazer as nossas orações breves. Curiosamente para os mais preguiçosos as orações resumem-se a pedir: “Ajuda-me a arranjar um bom emprego”, “Por favor queria tanto um carro novo”, “Ajuda-me a acabar a tese rapidamente.”, e tantas outras variações de pedidos e necessidades do dia-a-dia.

Não é que estes pedidos, na pequena capela da Regaleira, tenham sido diferentes dos outros pedidos que se fazem em qualquer outro instante, mas talvez tenha sido o misticismo da Regaleira que aumentou o poder do pedido.

Este último pedido da tese concretizou-se: ontem recebemos uma carta onde dizia: “O prazo para entrega da dissertação das teses de mestrado é 31 de Outubro”. O desafio é que sempre tínhamos achado que era dia 30 de Novembro.

E assim, a dois meses, digo a um mês de terminar a tese perdemos um mês de possível trabalho.

Para os mais interessados nas questões da Lei da Atracção há uma parte do filme/livro que nos diz exactamente para sermos muito precisos no que pedimos. Precisos ao ponto de não ter surpresas. Nem boas, nem más.

Assim, para todos aqueles que querem acabar o seu mestrado recomendo que sempre que forem a uma capela, e em especial à Regaleira, que peçam com a seguinte estrutura frásica: “Por favor ajuda-me a ser super eficiente e competente, a escrever com qualidade, rigor e consistência, de forma a que não precise de utilizar todo o tempo que tenho para entregar a tese e poder acabá-la rapidamente.”


PS: Não assumimos qualquer responsabilidade pelo insucesso desta oração.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Filho Pródigo a Casa Retorna

Realmente não sou normal...

Escrevo quando estou feliz. Estou feliz.

Depois de meses de incertezas provocadas e provocadoras, bem como provocantes, sinto-me de novo a direccionar-me.

Um pouco mais velho, um pouco mais sábio.

Aprendi regras de ouro da vida. Que o pouco que temos pode ser sempre menos. Que aquilo que tememos volta sempre para nos assustar. Que aquilo que é importante para nós está sempre connosco.

Não vos quero chatear com trivialidades, mas queria que lessem isto porque a língua tem muita piada. A escrita e a de carne e osso. Serve para montes de coisas.

http://porta1175.blogspot.com/2007/05/gai-not-gay.html

quinta-feira, 27 de outubro de 2005

ERA INVEJA

No Brasil, três coisas são indiscutivelmente democráticas. A praia, que debaixo de um sol junta madame e funkeira trajadas no mesmo uniforme. O futebol, que une o ladrão e o padre numa imensa fraternidade. E o trânsito, que bota o Zé do Chevette e João do Jaguar lado a lado, paralisados pela mesma encrenca. Das três brasilidades, o futebol é a que mais me intriga.

Tenho um namorado que ama a bola. É uma pessoa cheia de virtudes, mas, se há uma constância em seu caráter, esta é a impontualidade. Não consegue chegar na hora, o mundo o atrapalha, a menos é claro no caso do futebol. Não falo aqui daquele jogo no estádio com hora oficial para começar, refiro-me à pelada, ao racha, àquele bate-bola entre amigos, que no caso aqui de casa acontece três vezes por semana. O campo é longe, uma viagem, o sol a pino - não importa. Dia do compromisso logo cedo o moço fica ansioso, não pode atrasar e não há imprevisto que o segure. Nesses dias meu amor é um britânico!

Sábado desses resolvi acompanhá-lo. Os companheiros de partida, esbeltos desportistas, não gostaram nadinha, mas, gentis, fizeram que sim. Aquilo não é lugar de mulher, eu já devia saber. Para compensar o mal-estar, começa o jogo e eu bato muita palma, exagero o entusiasmo, assovio e tanto faço que o dono do campo a quem eu bajulava escancaradamente sentiu-se na obrigação de me dedicar um gol. Segue o embate com altos e baixos, a coisa aquece e pimba... um golaço, aquele chutão do meio do campo para dentro da rede à Roberto Carlos. As más-línguas desmerecendo o artilheiro dizem que o momento é histórico e não se repetirá - não acredito, foi jogada de mestre; vi e guardarei na memória. Continua a partida com bons momentos, outros nem tanto, uma contusão aqui, uma falta ali, um corpo caído no chão.

De repente me bate uma estranheza e vou percebendo que acima da bola, das jogadas, do corre para lá e para cá, o que mais se via, na verdade, eram discussões, ofensas, xingamentos e uma roubalheira de fazer corar um palmito. A coisa chegou a um ponto em que tive a certeza de que terminado aquilo os adversários não voltariam a se falar. Acaba o jogo. Entre vitórias e desilusões, corre-se para o vestiário e devo dizer que nem na feira fala-se tão alto e ao mesmo tempo quanto num banheiro cheio de homens; eu não estava dentro, mas nem precisava...

Fiquei quietinha do lado de fora esperando meu namorado, que, pela delonga, tomava um banho de Cleópatra. Assim, pude observar bem os outros rapazes que sorridentes e limpinhos iam saindo do vestiário qual amigos de infância. Aqueles mesmos que há pouco se juravam de morte agora pavoneavam-se uns para os outros aos tapinhas nas costas. Havia ali cantores-compositores, um sapateiro, o editor de um jornal, um empresário da música, atores, um jogador aposentado, dois médicos e alguns moços das redondezas empobrecidas cuja competência em campo desequilibrara o jogo -tudo adversário de sangue na hora da bola e amigo do peito na saída para o chope. Na pelada não há rancores, o que se passa em campo fica no campo. Nem pudores, ali são todos craques - o vírus da imodéstia ataca democraticamente. Uma beleza!

Fui-me embora com um vazio a futucar o espírito. O que nós, mulheres, temos de parecido, o shopping, o salão? Nem chegam perto. Não pode xingar, espernear, soltar os sapos da garganta - além do que, num noutro, o máximo de exercício que se faz é com a língua na futrica da vida alheia ? muito chato. Não havia como negar, o brinquedo dos rapazes é divertido como só, e meu vazio era de inveja.

Nós, mulheres, não temos nada que se compare!

* Maitê Proença

Obrigado RL

segunda-feira, 17 de outubro de 2005

2 Milhões de Pobres em Portugal

Por mais de uma vez já ouvi a notícia que, em Portugal, existem mais de dois milhões de pobres e que cerca de 20% dos mais ricos, possuem tanto como a metade dos mais pobres.

Só quem não conhece minimamente um Portugal menos urbano e litoral é que pode ter dificuldade em entender estes valores.

A realidade com que me deparo com regularidade é uma que garante esses mesmos valores.

Tenho uma pequena casa com um terreno perto de Coimbra que era dos meus avós. Desde que faleceram a terra foi ficando cada vez mais abandonada. Estivemos cerca de dez anos a tentar arranjar alguém que quisesse trabalhar o terreno, tomar conta dele e da mesma forma conseguir produzir bens para consumir ou para vender.

Nunca conseguimos. O melhor foi um homem que só bebia. Aliás quase todos bebem e bebem e bebem. A senhora que nos limpava a casa está no hospital com hepatite (depois descobrimos que tinha bebido grande parte da garrafeira centenária do meu avô). A mãe do rapaz com quem brincava, para além de esquelética, é alcoolatra também. O homem que trabalhava no nosso terreno e tantos outros: alcoolatras.

Pergunto-me como, no meio de tanta miséria, ainda há dinheiro para vinho e cerveja, e como continuam a preferir os mesmos ao trabalho e à possibilidade de recuperação...

Diria que se tornaram subsídio dependentes, de dinheiro mais fácil, que não custa e que lhes permite custear os vícios em troca da produção ou do trabalho. É extraordinário o quão baixo se consegue descer, e suportar. Não é só a falta de dinheiro mas a falta de alegria, falta de vontade, falta de motivação. Preferem a miséria ao amor próprio e ao trabalho.

Vivemos uma crise profunda e precisamos de agir para mudar já!

segunda-feira, 10 de outubro de 2005

Ainda sobre as autárquicas

Não quero ser chato, mas ainda ando às voltas na cabeça com a razão que leva os eleitores a escolherem alguém que é indiciado pela prática de crimes contra a câmara municipal onde é presidente.

Claro que podemos evocar a popularidade, a obra feita, o carisma ou o charme. Podemos dizer que eles melhoram a qualidade de vida das pessoas dos seus concelhos. Que garantiram melhorias a nível do emprego, da saúde, da educação.

Não está em causa a sua qualidade como autarcas, mas a suspeita que sobre eles recai.

Acho que o problema aqui é também da própria forma portuguesa de ser. «Se ele "roubar" ao estado, para ajudar a gente, ainda melhor!!!», «Esses tipos do governo são todos uns corruptos, merecem que fiquemos com o dinheiro deles» e por aí em diante.

No entanto, amigos a regra matemática é simples: Cidadão -> Dinheiro -> Estado Estado->Autarquias->Cidadão

Se estão a tirar do estado, estão a tirar do vosso próprio bolso. Se estão a desviar de dinheiro da autarquia também vos estão a tirar. Veja como se vir é sempre mau, é sempre negativo para o bem estar das pessoas que elegeram esses autarcas.

Mas não quero vos cansar. E uma vez mais digo que não quero acusar ninguém indevidamente.

Mas pergunto-vos isto: Poriam os vossos filhos nas mãos de um alegado pedófilo? Poriam os vossos pais e avós num carro conduzido por um alegado alcoólatra? Deixariam dinheiro vosso em cima da mesa de casa de um alegado ladrão? Iriam procurar tratamento a um médico alegadamente negligente?

Então porque votam, com tanta franqueza num candidato indiciado de práticas ilegais? Talvez porque o tema não vos afecte? Estão enganados, afecta-nos a todos.

segunda-feira, 3 de outubro de 2005

Entre o Amor e a Paixão

Ontem, na minha insónia, dei mais uma vista de olhos ao filme Captain Corelli's Mandolin. Há uma parte onde um pai explica à filha (e também personagem principal Penelope Cruz) a diferença entre paixão e amor. Vale a pena ler:

"
When you fall in love, it is a temporary madness. It erupts like an earthquake, and then it subsides. And when it subsides, you have to make a decision. You have to work out whether your roots are become so entwined together that it is inconceivable that you should ever part.
Because this is what love is.
Love is not breathlessness, it is not excitement, it is not the desire to mate every second of the day. It is not lying awake at night imagining that he is kissing every part of your body.
No... don't blush. I am telling you some truths.
For that is just being in love; which any of us can convince ourselves we are. Love itself is what is left over, when being in love has burned away. Doesn't sound very exciting, does it? But it is!"


sexta-feira, 30 de setembro de 2005

Fim do(a) B.LEZA ?!?! - Repórter "Quase" Sempre em Pé


Segundo fontes jornalísticas bem colocadas nos meios culturais (tipo ao colo e assim) está previsto o fim do B.Leza. Segundo soubemos a Casa Pia de Lisboa quer o espaço de volta.

[a Casa Pia anda a abusar... anda, anda... se calhar não lhe chegam os sarilhos em que já estão]

Quem nunca dançou um "cu duro", quem nunca se sentou naqueles corredores estreitos, sentou-se nas mesas pequenas ou apreciou uma cerveja gelada? Quem é que nunca convidou uma desconhecida para um "funána"?

Independentemente das razões aquele espaço é único. Carrega consigo uma identidade luso-africana que não se encontra em muitos lugares. É um dos pontos de síntese entre essas duas culturas irmãs.

Não podemos deixar que isto continue assim, que silenciosamente alterem os nossos espaços. Vamos revoltarmo-nos!!! Vamos dizer sim ao B. Leza!!!

Todos os que querem continuar a lá ir digam SIMMMMMMMMMMMMMM

PS: Para todos os que queiram ou não. Se carregarem no pequeno envelope a baixo do artigo podem enviar para todos os vossos amigos este grito de revolta!!!

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

Proposta para os jornalistas

Caros colegas, não propriamente de profissão, e se calhar nem de formação, mas como agora está na moda, caros colegas.

Ando bastante desanimado com a qualidade do jornalismo a que assistimos quotidianamente. Não quero apontar dedos, nem dizer que é tudo mau. Mas quem lê, vê e ouve, sabe que a qualidade não anda propriamente a dominar os meios de comunicação social portugueses.

Depois de alguma reflexão venho fazer-vos duas propostas de trabalho específicas que acredito possam solucionar parcialmente o problema.

Primeiro: Com tanto “diz que disse”, “aldrabão é o senhor”, “isso não é verdade” e outras afirmações que tais, acho que seria interessante tentar esclarecer algumas das questões. Apesar de o ser-se jornalista não ser semelhante a ser-se uma força de autoridade e/ou judicial, seria muito interessante tentar chegar a alguns esclarecimentos.

Quando um político diz: “Tenho aqui um documento que prova...” que alguém se desse ao trabalho de olhar para o documento, e confirmar, ao máximo das suas capacidades, a veracidade do que está lá escrito.

Porque nós, do lado de cá, ou acreditamos ou não, avaliar a veracidade não conseguimos. (Por isso talvez, nestes dias de pós catástrofes várias, valha mais o que parece do que o que é.)

Agora imaginem um debate, em que um diz “sim” e o outro diz “não”, o moderador dissesse “segundo a investigação que desenvolvemos temos de afirmar que o Dr. XXX está correcto no ponto x e o Dr. YYY no ponto y.”

Claro que isso implicaria uma responsabilidade acrescida aos meios de comunicação. Bem mais difícil do que dar tempo de antena a pessoas sensacionalistas e pouco sérias. Claro que aí os jornalistas teriam de defender as suas posições de forma séria e fundamentada. Mas estou certo que o público apreciaria.

Segundo: A outra ideia também poderia revolucionar os meios, até criar novas fontes de informação, que julgo, seriam inovadoras a nível mundial. Criar o Observatório das Promessas.

Todos os dias existiria uma equipa que, do que surgia nos documentos oficiais, ou nos discursos públicos, recolhia apenas os compromissos e as promessas. Depois sempre que a promessa tivesse na data, nas quantidades ou medidas certas, fariam uma validação da concretização da mesma.

Exemplo: “Prometo arranjar as casas todas deste bairro até ao final do mandato!”

Depois era só esperar pelo fim do mandato, saber quantas casas existiam, quantas tinham sido arranjadas, e destas quanto efectivamente satisfariam os moradores.

Isto tinha dois efeitos fabulosos, em primeiro lugar, as figuras públicas teriam de pensar bem antes de começar a fazer afirmações a torto e a direito. Em segundo, as pessoas consumiriam com regularidade esses meios de comunicação para se informarem do quoficiente de aldrabice e exagero de cada figura pública.

Que tal?

segunda-feira, 26 de setembro de 2005

Ode aos Amigos

A questão associada a quem são os nossos verdadeiros amigos é uma dúvida comum a todos os seres humanos. No período da adolescência, ou da pré-adolescência, essa questão tem uma dimensão maior. "Este é o meu melhor amigo", "Aquela é uma grande amiga"; sentimos a necessidade de arrumar e organizar os nossos sentimentos, definir uma ordem de prioridades.

Agora, um pouco mais velhos as questões são outras. Lembro-me bem de um cartoon que dizia: "Um amigo pode não ser capaz de te puxar para cima, mas faz tudo para não te deixar cair." Hoje já não sei bem se assim é.

Sinto no coração que ajudar a não cair poderá não ser a solução melhor. Até porque a maioria de nós só aprende quando bate com a cabeça, e se não deixamos isso acontecer, então não deixamos as pessoas crescerem. Claro que esta regra não é infalível. Aliás, na vida não há regras, há experiências.

Apesar disso tenho uma certeza, numa verdadeira amizade não há tempo. Pode ser amanhã ou daqui a mil anos, quando nos voltamos a encontrar sentimos o mesmo, a mesma proximidade, o mesmo calor no coração.

No entanto, acho que nos nossos dias as amizades são postas à prova de modo diferente. Achamos que os amigos têm de nos apoiar, e tem de nos entender, que nos dar bons conselhos e nunca nos deixar "pendurados". Se tivesse que definir as coisas diria que o amigo é aquele que mesmo quando não concorda, não apoia, não entende, recebe-nos sempre com um sorriso aberto. Sem culpas nem recriminações.

Ser amigo hoje é um luxo! Podemos conhecer muitas pessoas, relacionarmo-nos com grande parte do mundo que nos rodeia, até sermos muito compatíveis em termos de trabalho, de lazer, de desporto, ou qualquer outra coisa. Mas isso não define uma verdadeira amizade. Se tivermos seriamente que olhar para dentro, vamos perceber que os amigos, mesmo amigos, não são muitos. Mas também não vos sei dizer se isso será assim tão importante.

Procuramos validação, grande parte de nós precisa desse carinho, da concordância e do apoio, mas isso não define uma verdadeira amizade.

Uma amizade é outra coisa (em minha opinião claro) menos nítida, mas mais forte. Uma sintonia profunda.

Gosto dos meus amigos, mas quero aprender a não precisar deles. Apreciar as relações, as trocas e o respeito, mas acima de tudo não precisar. Essa necessidade que temos, ou que achamos que temos, não nos inunda, e não é sincera.

Amigos são os que dão, amigos são os que recebem, amigos são os que estão sempre aqui. Aqui no coração. A sorrir.

Gosto dos meus amigos...

terça-feira, 20 de setembro de 2005

Buzinas e Mercedes

Hoje, a caminho do meu local de trabalho, esse jardim no centro de Lisboa (parabéns ao casal de jardineiros), fui confrontado com algo demasiado comum na nossa cidade: a buzina de um Mercedes e neste caso (como na maior parte dos casos) pertencente a uma taxista.


- BUUMMM, BUUMMM, BUUMNMMMM.

A ecoar na minha cabeça. Logo cedo, antes do café e tudo. Sim senhor, já o vimos, muito prazer e claro que está com pressa.

Ao chegar ao meu local de trabalho, ao meu lado, mais dois Mercedes, estes simpaticamente silenciosos, entravam para o meu parque de estacionamento. Eram daqueles mini-mercedes, tipo mercedes-de-preparação. "Filho, hoje que já tens 18 anos e carta de conduzir vou dar-te algo para te preparar para os grandes carros que vais ter: este mini-mercedes." E a alegria inunda a família Mendes, ou Sousa, ou Esteves ou o que for.

Claro que os carros depois vão crescendo como os proprietários, e as buzinas com eles também.

Bum para aqui, bum para ali e bum para mais acolá. Sempre ao nosso lado ou atrás. Para não sabermos bem se a porcaria da buzina nos é dirigida. Mas sempre para garantir que num quilómetro quadrado todos sabem que vai ali um Mercedes e alguém ou com pressa, ou que gosta de chamar a atenção, ou então as duas coisas.

Por isso vinha aqui fazer uma proposta, que aumentaria bastante a nossa qualidade de vida. Ou proibir as buzinas nos Mercedes, ou arranjar um som tipo: pim, pim, ou piu, piu ou algo tão suave que nem se podesse garantir que se ouvia no carro à frente.

Isso sim!

Agora a questão resta: e se os modelos Mercedes deixassem de fazer barulho, será que continuavam a ser tão vendidos? E os taxistas? Se calhar escolhiam outro modelo ou então adaptavam buzinas triunfantes aos seus Mercedes e então passariam a buzinar por todo o lado, só para vermos como buzinam.

segunda-feira, 19 de setembro de 2005

Risquinhos Amarelos - Serviço Público de Bloguismo

A todos aqueles que tiraram a carta há muito tempo, que não se lembram, que tiveram de pagar ou encurtar o exame de código o blog Bom Tempo no Canal vem prestar mais um dos seus grandes serviços.

Sempre que estiverem na vossa viatura perante um cruzamento, um T, ou qualquer outro entroncamento, se virem umas riscas amarelas no chão (meio apagadas ou até intactas) isto quer dizer que o vosso carro não deve parar sobre elas em nenhuma circunstância. Se pararem o carrito lá, tão a tapar outros carritos, que por sua vez irão tapar outros, e em vez de demorarmos umas horitas, demoramos uns diazitos.

Sim, eu sei! Há sítios onde nem se vê os riscos, e outros que nem os têm. Mas o problema resolve-se com facilidade. A partir de hoje, em todo o lado, nunca parem o carro no meio de outra via de rodagem. Será tão melhor.

Obrigado!

Excerto do Manual de Conduta Política Universal

Caros amigos estou de volta. Tenho muito para contar, mas pouco tempo para o fazer, por isso não resisto a deixar-vos com uma informação fundamental encontrada em todos os manuais de boas práticas políticas. Será isto a ética republicana que o nosso Presidente mencionou há umas semanas?

Lei 32 - Sobre Indícios de Prática de Crime

Artigo 2º – Sempre que o detentor de um cargo público for indiciado da prática de algum crime deverá imediatamente renunciar ao cargo público. Se, posteriormente for acusado não deverá voltar a ocupar qualquer cargo público. Se se provar a sua inocência poderá, resolvidas todas as acusações, regressar a cargos públicos ou candidatar-se aos mesmos.


Lei 56 - Sobre o Acumular de Outros Cargos Juntamente Com Cargos Públicos

Artigo 1º – Respeitando o princípio do serviço público, e do interesse da sociedade que serve, o funcionário público, eleito ou contratado, nunca deve acumular, no mesmo período de tempo, qualquer outra função profissional.

Artigo 2º – Mesmo não existindo conflito de interesses entre a função pública e outra qualquer, a prioridade tem sempre que ser dada ao cargo público.

Artigo 3º – Isto aplica-se com mais veemência a todos os cargos eleitos, que sob nenhuma circunstância deverão sacrificar o bem público.


PS: Amigos políticos: Fátima Felgueiras, Avelino Ferreira Torres, Isaltino de Morais, Valentim Loureiro, ou outros quaisquer menos conhecidos, até quando? Até quando brincarão com a vida e o dinheiro das pessoas que vos elegeram, ou que vos pagam os salários, ou que acreditam em suas excelências? Não se pode confundir o poder político, que vem com grande responsabilidade, com a vossa própria pessoa, nem com as vossas próprias vontades e gostos. Juizito!!!

segunda-feira, 12 de setembro de 2005

Cuidado aí no céu

Sempre o ouvi. Nunca o vi. Mas era sempre forte e destemido. Sempre com o sotaque carregado. Cheio de personalidade. Era um gladiador português. Dizia que dava conta deste e daquele. Que aniquilava o outro e mais aqueloutro. E aí de quem se metesse com ele! Era um dos bons, dos genuínos. Na fantasia juvenil ele representava um misto de herói com homem simples.

Tinha uma clínica onde ajudava a tratar problemas de saúde e que a minha mãe ainda frequentou aqui em Lisboa.

Era o meu Tarzan, não era da selva, nem dos macacos, mas era o português, o do bacalhau, do caldo verde e do torresmo.

Agora partiu para outro sítio. Já o estou a ver, à porta do céu, a falar com S. Pedro: "O quê? Não posso??? Tu vê lá bem S. Pedro. Pensa duas vezes. Até podes chamar Jesus, ou até mesmo Deus. Dou conta de todos. Afinal sou o Tarzan Taborda."

E por isso vos informo. Oh malta angelical. Tenham cuidado. Tenham muito cuidado. Ele é nosso, é bom, é forte... e é só nosso. Cuidado aí no céu!

domingo, 11 de setembro de 2005

Edukadores

Hoje fui assistir a este filme de produção alemã. Confesso que sou fã de filmes americanos, de grandes efeitos especiais, de tramas padronizados e de personagens estandardizadas. Acho que me agrada passar aquele tempo cheio de fantasia fácil e cómoda. Cheio de coisas extraordinárias e simples, sem profundidade e que me divertem. As produções europeias, sem generalizar claro, tendem para um modelo que me aborrece. Recorrem muitas vezes a conceitos mentais, densidades que me entediam e que não acho muito diferentes das americanas. Apenas noutro modelo, noutro comprimento de onda. Existem sempre excepções e já tenho visto produções nacionais e europeias que me agradam muito. Recordo por exemplo o "Fala com Ela" do Almodôvar.

Este filme também pode encaixar-se nessa excepção. Não porque as questões sejam muito inovadoras, mas porque acho que são problemáticas comuns a todos nós. Por um lado, a do crescimento e das escolhas que fazemos conforme vamos envelhecendo. Por outro, as do peso das escolhas que fazemos e da importância ideológica das mesmas.

Diz um personagem: “Se antes dos trinta não fores liberal, não tens coração. Se depois dos trinta ainda fores liberal, és um idiota.” Não sei se é bem verdade, mas não posso questionar que se encaixa em grande parte dos moldes da sociedade ocidental. Realmente a rebeldia é algo natural a uma certa camada etária, ainda mais porque essa camada etária tem vindo a envelhecer e, por essa razão, as acções rebeldes acabam por tomar um maior dimensão, ser mais “revolucionárias” ou mais “contestarias”. Acho que todos já fomos do contra, todos já quisemos mudar o mundo, todos acreditámos que tínhamos o poder para o fazer, e que a nossa vontade era o que bastava. Também é verdade que chegada determinada idade conclui-se que o mundo não é assim tão branco e preto, que os bons e os maus não são divisões estanques, nem tão fáceis de definir, e que com a responsabilidade vêm decisões difíceis, que com o trabalho, com a família, com a aquisição de bens, tudo muda, as prioridades deixam de ser o mundo e passam a ser as nossas vidas pessoais, as nossas dívidas, as nossas dúvidas.

No meu caso pessoal sinto-me confuso. Porque sinto que cada vez mais estou mais próximo de uma mensagem mais liberal, mais de esquerda, mais idealista e sonhadora. Deixo a avaliação convosco.

A outra dimensão do filme também me é apaixonante. Se devemos ou temos poder e capacidade para abdicar de tudo pelo que acreditamos. E se o fazemos em nome de algo que acreditamos ou unicamente por medo, ou por necessidade de protagonismo. Não há respostas fáceis, mas estou certo que todos já o desejaram: deixar tudo e partir para algum sítio, para fazer alguma coisa que realmente acreditem. E a grande maioria, peço desculpa aos mais determinados, terá ficado no sofá adormecido.

Realmente é muito importante aquilo que acreditamos, mas não sei se a solução é afastarmo-nos do mundo em que vivemos ou se é encontrá-la no dia a dia. A distância, como já disse, é cómoda e importante. Mas não resolve. Que o digam todos aqueles que partiram e que quando voltaram encontraram tudo igual. Não porque as coisas não tenham mudado, mas porque as suas questões, que ficaram congeladas pela distância, não se resolveram sozinhas. É bom sermos rebeldes, e melhor ainda quando o fazemos por uma causa com importância e com justiça. “Hasta la victoria siempre.”

Mas realmente é uma reflexão individual, profunda e importante. Uma reflexão que o filme transporta para os nossos corações, com simplicidade, sem violência e com muitas interrogações. E até porque “Há pessoas que nunca mudam!”

quinta-feira, 8 de setembro de 2005

Implosão – Serviço Público de Bloguismo

A todos os que se encontram na margem oeste do país, abaixo de Setúbal e acima de Melides aconselha-se todo o cuidado. Segundo informação noticiosa vão implodir umas coisas por lá. O que é isso? Não se preocupem, façam só o que estamos a dizer. Acreditem em nós! Se correr bem só se fracturam os prédios vizinhos, e alguns jornalistas de fato escuro e gravata ficarão com a barba chamuscada. Se correr mal podem cair relâmpagos dos céus e etc e tal. E se calhar um político ou dois podem ficar muito mal dispostos.

Avisa-se por isso a todos os habitantes para se fecharem em casa, longe de rádios e televisões. Assim salvam-se por três razões: não perdem tempo a ver parvoíces; depois não estupidificam a ver idiotas engravatados à frente da câmara a dizer coisa nenhuma, depois não sentem que perdem tempo e dinheiro em nadas e coisas nenhumas. E se quiserem aproveitar namorem, façam amor, falem com os vossos filhos ou pais ou amigos ou sei lá, coisas animadas e bem mais interessantes.

Se implodir, implodiu. Se não implodir, depois logo se vê.

Quem não tem Katrina, não tem nada.

RECOLHAM ÀS VOSSAS CAVES!!!

quarta-feira, 7 de setembro de 2005

Caminho de Santiago 1

O mar visto daqui parece imenso, sem fim, sempre azul esverdeado. Há um sentimento de paz, de força interior. Que belo este mar. Mar que nos liga, mar que nos dá vida, que nos alimenta, que nos refresca.

Saí do carro e subi as pedras intemporais que pairavam no alto do monte. Visto daqui, tudo parece tão mais pequeno, tão menos importante. Estou no fim da terra.

Há centenas de anos atrás, aqueles que percorriam o caminho em direcção a Santiago de Compostela vinham até aqui. Até ao fim da terra. Procuravam encontrar um oceano que não conheciam e levar com eles um pouco desta imensidão.

Acreditavam que a mãe de Jesus tinha desembarcado nas praias desta costa. Que tinha vindo acompanhar o corpo do apóstolo Tiago até ao seu último descanso.

Nessa altura, os que caminhavam centenas de quilómetros, e por vezes até milhares, queriam guardar um pouco da jornada consigo, queriam ter uma prova da sua jornada. E neste mar imenso as conchas (ou vieiras) representavam a conclusão dessa viagem, eram testemunhas simples da jornada.

O caminho era feito por muitas razões, mas acima de tudo por uma vontade interior, uma predisposição, uma fé que encontrariam algo no fim do caminho, ou no próprio caminho.

Agora que chegava aqui, ao fim da terra, que encontrava uma vez mais este encontro de terra e mar encontrei também a vontade de percorrer esse caminho. Não pelo destino do mesmo, mas pela jornada. Porque nesse caminho somos confrontados com o nosso próprio ser. O tempo anda mais devagar e o corpo torna-se o nosso veículo principal.

Mais depressa, ou mais devagar, para passar por aqui ou por ali, não importa. Não importa muito chegar a Santiago ou ir em direcção a outro qualquer lugar. Importa sim esse caminho interior, sem tecnologia, sem pressas e sem pressões.

Estava no alto do monte, em cima da pedra, perto do fim da terra. Será que tudo acaba aqui? Que se renova e recomeça? Não sei...

Mas a vontade nasceu. A vontade de percorrer.

Este jogo de vontades é curioso. Queremos fazer as coisas, mas depois olhando com atenção o que é que descobrimos? Que na realidade estamos sempre a percorrer um caminho. Um caminho que pode não ser de terra, nem de campos de trigo, nem de macieiras, mas sempre um caminho.

Mas ás vezes a distância faz bem, para vermos tudo em perspectiva, para percebermos melhor, para conseguirmos sentir, para nos encontrarmos. Sem pressas, sem pressões.

Não sei, neste instante, do fim da terra, se o meu percurso é este (o de Santiago) ou um outro qualquer. Mas sei que este chama por mim, e eu por ele. Não sei como, nem sei quando, mas chama por mim.

terça-feira, 6 de setembro de 2005

Quero tanto, tanto, tanto...

Tenho uma daquelas pulseirinhas dos desejos que me trouxeram do Brasil, da Nossa Senhora da Bahia. Elas são óptimas, fáceis de pôr, sem nenhuma espécie de regra, e se esfregarmos as mãos em rochas, facas, lixas ou qualquer outra coisa do género (natureza cortante) a mesma desfaz-se e lá se concretiza mais um desejo.

Acho óptimo!

Ainda por cima nunca ninguém sabe ao certo como funcionam. São três nós! Não basta um. E afinal dá para quantos desejos? Tantos quantos os nós. Então quero trinta. E depois atira-se para o mar? Não eu ponho na sanita... Mas olha que tem de ser na sétima onda.

Mas isto é como os jogos de azar, nunca ganhamos, mas vai-se lá saber o que se passa, o que vai se passar, se calhar até dá. Se calhar até ganhamos cinquenta mil milhões de euros e podemos comprar triliões de pulseirinhas e ainda ter mais sonhos concretizados.

Quero ter um carro novo, quero ter uma namorada nova, quero uma casa, um emprego, quero ganhar muito dinheiro, quero ter saúde de ferro, quero, quero, quero tanto...

Na realidade acho que isto é o sonho de todos os homens, aquela luta quase infantil contra os factos. Viver exige esforço, dedicação, trabalho, empenho. Se queremos um trabalho temos de nos esforçar, se queremos uma namorada temos de aprender a relacionar-mo-nos, se queremos saúde, não podemos passar a vida a rebentar o fígado.

Mas no fundo, o que era bom, era ser fácil, tipo instantâneo, tipo pulseirinha da bahia. Quero tanto, tanto, tanto...

segunda-feira, 5 de setembro de 2005

Tudo Arrumadinho

Gosto muito de gavetas, sempre gostei. Aquele cheiro de madeira, os forros de papel colorido, os saquinhos com lavanda. Gosto de gavetas: de cuecas, de meias ou de t-shirts. Gosto das que têm papel e canetas coloridas, ou das que guardam as cartas e os postais das viagens. Gosto das que guardam os bilhetes que vamos reunindo com o tempo.

São úteis e são práticas. Julgo que quem pensou: "eh pá, e se neste armário eu metesse umas coisas que dessem para puxar e voltar a meter para dentro, onde se pudesse pôr tudo e mais alguma coisa, arrumar coisas, que bela ideia seria"; era realmente um génio.

Gosto de gavetas: aquelas que guardavam os chocolates em casa da avó e que depois de almoço podíamos ir buscar, as gavetas com os talheres de prata, ou com os guardanapos brancos. Gosto de gavetas.

Mas se calhar a moda pegou demais. A necessidade de deixar tudo ordenado, no sítio, tudo bem posto e organizado. Se calhar a moda pegou. E agora as pessoas arrumam tudo, mas mesmo TUDO. E se na parte dos bens materiais não me faz confusão, na parte dos sentimentos, das emoções, deixa-me bastante apreensivo.

"Amigos, para aqui. Namorados, acolá na gaveta de baixo. Os chatos, vão para ali."

As pessoas gostam tanto de arrumar que colocam tudo lá. Coisas boas e coisas más, alegrias e tristezas, amigos e inimigos, chefes e empregados, aventuras e incidentes, família, vizinhos, donos de café e tudo o mais que lá couber. E do lado de fora coloca-se um papelinho rectangular com o título da gaveta só para não se baralharem muito.

Claro que ás vezes é difícil arrumar algumas coisas: "Gosto dele, então vai para aqui; espera, mas ele ás vezes é tão chato, se calhar é melhor pôr ali; mas ele tem uns olhinhos, vai mas é para esta." E outras vezes é mais difícil de identificar:"Esta vai para o baú dos 'não faço nem ideia' ".

Gosto de gavetas, mas acho que já estamos a exagerar: ele é velho, ele é mau, ela é chata, ele é pequeno, ela é preguiçosa, ele é mariquinhas. Se calhar já chega. Já CHEGA!

Usar gavetas é óptimo, serve para muita coisa material. Mas o resto, sinceramente, não o arrumem, deixem-no sempre a jeito. E a cada instante olhem para o outro sem rótulos, e sem gavetas.

Afinal até pode acontecer que não caibam lá dentro, e depois? Já pensaram no trabalho que dá?

"Pra que somar se a gente pode dividir"

Neste último fim de semana vivi uma experiência extraordinária. Voltei à Festa do Avante!

Foi bom, mas foi surpreendente. Tanta, mas mesmo tanta gente. Milhares e milhares...

Não costumo gostar de banhos de multidão, do suor na cara, dos encontrões, da falta de espaços para nos sentarmos e até de casas de banho, mas gostei de estar lá. Gostei de participar numa festa de tanta diversidade. Com tanta gente de tanto lado, de tantos feitios, de tantas idades.

O mais próximo daquele espírito com que me deparei foi na Queima das Fitas, em Coimbra, naquele recinto eufórico. Mas aqui era diferente, mais idades, mais gentes, mais diversidade.

Se tivesse que resumir tudo escolheria dois argumentos a favor e dois argumentos contra.

A favor, é surpreendente encarar e participar da organização comunista. Os comboios, as camionetas, as filas, as senhas, os guias, os mapas tudo funciona, ou quase. Tudo claro e fácil, com pessoas pacientes e prestáveis. O espírito do "todos fazem a sua parte" (já iremos ao reverso da medalha), o espírito do "somos todos iguais". A Carvalhesa, os sorrisos, a preguiça e os espaços perto da água. Tudo muito bom.

A favor, é a diversidade. Diversidade de sons: desde o rock, passando pelo tango, até a música clássica. E eram crianças, jovens, adultos e velhos. A beber cerveja ou água, a fumar ou não, mas todos juntos. Diversidade de culturas: os portugueses, os galegos, os moçambicanos, etc. Diversidade de sabores: da sopa da pedra, passando pelo choco frito, e indo para as espetadas em pau de louro. Este encontro é a prova viva de que não precisa existir alta e baixa cultura. Todos podem participar em tudo. E acho que essa é uma das grandes lições da Festa do Avante. (e sim, Xutos e Clã foram demais!!!)

Contra, a “Luta continua”, “Resistência”, são exemplos de frases de ordem que se vêm espalhadas por todo o recinto. Em letras grandes, demasiado grandes. Não ponho em causa a validade histórica das afirmações e a sua importância. Mas neste milénio novo acho que já não há espaço para elas. Acho que chegou a altura de novas frases de ordem, de novas formas de comunicação: “A aprendizagem continua”, “Diálogo sempre”, “Construir em conjunto” ficariam deliciosas em cartazes gigantes e apelariam a um espírito renovado. Ao ver aquela malta nova, toda cheia de símbolos da revolução, com um discurso "camaradizado" deixa-me meio triste. Não que o discurso não tenha valor, é óbvio que tem, mas é preciso um discurso novo, não de resistência, de oposição, mas de construção. E principalmente, que os jovens o queiram para se rebelar acho bom e bonito, que o discurso queira os jovens para parecer mais forte e vivo, é triste e escusado.

Contra, algumas confusões normais da malta aqui desta ilha em que vivemos. Sim, é realmente muito barato (3 dias, 17 euros). É verdade que o trabalho é voluntário, que é tudo para o partido, e que isso tem valor e é importante (quando é feito com convicção). Claro que, como todas as formas de participação doutrinária, há quem acredite e faça, há quem não acredite e faça na mesma, e há quem não acredite, quer faça ou não. No Avante vi muitos não acredito, mas faço (talvez por hábito). Numa barraca fomos muito mal servidos e o senhor do lado de lá respondia ofendido: “Somos voluntários, não recebemos nada”. Está certo senhor, mas nós pagámos, e a decisão de como funcionam, a vossa oferta (digna e meritória) não nos diz respeito, não é nossa. Claro que é normal neste país que isso aconteça, que as pessoas sejam mal servidas, sempre com bons argumentos. Mas, se calhar, a malta comunista poderia fazer a diferença. Mostrar organização, profissionalismo e simpatia... e muita, mas mesmo muita organização.

Resumidamente, foi muito bom, são apenas arestas para limar. Até porque acho que nem a organização esperava o banho de multidão que vi lá, a viver a festa comigo. Sim realmente é muito melhor dividir, do que somar. Mas se o fazem que seja por convicção, é que de outro modo, não vale a pena.

Como Dizia o Poeta

"Quem já passou por esta vida e não viveu
Pode ser mais mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou , pra quem sofreu

Ai quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada não

Não há mal pior do que a descrença
Mesmo amor que não compensa
É melhor que a solidão
Abre os teus braços meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer

Ai de quem não rasga o coração

Esse não vai ter perdão"

(Toquinho e Vinícius de Moraes)