segunda-feira, 5 de setembro de 2005

"Morena de Angola"

Pra minha morena de Angola, porque tás sempre presente

"Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela
Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela
Será que a morena cochila escutando o cochicho do chocalho
Será que desperta gingando e já sai chocalhando pro trabalho
Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela
Será que ela tá na cozinha guisando a galinha à cabidela
Será que esqueceu da galinha e ficou batucando na panela
Será que no meio da mata, na moita, a morena inda chocalha
Será que ela não fica afoita pra dançar na chama da batalha
Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela
Passando pelo regimento ela faz requebrar o sentinela
Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela
Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela
Será que quando ela vai pra cama a morena se esquece dos chocalhos
Será que namora fazendo bochincho com seus penduricalhos
Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela
Será que ela mexe o chocalho ou o chocalho é que mexe com ela
Será que ela tá caprichando no peixe que eu trouxe de Benguela
Será que tá no remelexo e abandonou meu peixe na tigela
Será quando fica choca põe de quarentena o seu chocalho
Será que depois ela bota a canela no nicho do pirralho
Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela
Eu acho que deixei um caho do meu coração na Catumbela
Morena de Angola que leva o chocalho amarrado na canela
Morena, bichinha danada, minha camarada do MPLA"

Chico Buarque 1980

"A Revolta dos Keridos" 2

Segundo o comentário de uma amiga:
"Os homens, ou são ursinhos, ou são ursos."
Venha o diabo e escolha!!!

"Pra que somar se a gente pode dividir"

Neste último fim de semana vivi uma experiência extraordinária. Voltei à Festa do Avante!

Foi bom, mas foi surpreendente. Tanta, mas mesmo tanta gente. Milhares e milhares...

Não costumo gostar de banhos de multidão, do suor na cara, dos encontrões, da falta de espaços para nos sentarmos e até de casas de banho, mas gostei de estar lá. Gostei de participar numa festa de tanta diversidade. Com tanta gente de tanto lado, de tantos feitios, de tantas idades.

O mais próximo daquele espírito com que me deparei foi na Queima das Fitas, em Coimbra, naquele recinto eufórico. Mas aqui era diferente, mais idades, mais gentes, mais diversidade.

Se tivesse que resumir tudo escolheria dois argumentos a favor e dois argumentos contra.

A favor, é surpreendente encarar e participar da organização comunista. Os comboios, as camionetas, as filas, as senhas, os guias, os mapas tudo funciona, ou quase. Tudo claro e fácil, com pessoas pacientes e prestáveis. O espírito do "todos fazem a sua parte" (já iremos ao reverso da medalha), o espírito do "somos todos iguais". A Carvalhesa, os sorrisos, a preguiça e os espaços perto da água. Tudo muito bom.

A favor, é a diversidade. Diversidade de sons: desde o rock, passando pelo tango, até a música clássica. E eram crianças, jovens, adultos e velhos. A beber cerveja ou água, a fumar ou não, mas todos juntos. Diversidade de culturas: os portugueses, os galegos, os moçambicanos, etc. Diversidade de sabores: da sopa da pedra, passando pelo choco frito, e indo para as espetadas em pau de louro. Este encontro é a prova viva de que não precisa existir alta e baixa cultura. Todos podem participar em tudo. E acho que essa é uma das grandes lições da Festa do Avante. (e sim, Xutos e Clã foram demais!!!)

Contra, a “Luta continua”, “Resistência”, são exemplos de frases de ordem que se vêm espalhadas por todo o recinto. Em letras grandes, demasiado grandes. Não ponho em causa a validade histórica das afirmações e a sua importância. Mas neste milénio novo acho que já não há espaço para elas. Acho que chegou a altura de novas frases de ordem, de novas formas de comunicação: “A aprendizagem continua”, “Diálogo sempre”, “Construir em conjunto” ficariam deliciosas em cartazes gigantes e apelariam a um espírito renovado. Ao ver aquela malta nova, toda cheia de símbolos da revolução, com um discurso "camaradizado" deixa-me meio triste. Não que o discurso não tenha valor, é óbvio que tem, mas é preciso um discurso novo, não de resistência, de oposição, mas de construção. E principalmente, que os jovens o queiram para se rebelar acho bom e bonito, que o discurso queira os jovens para parecer mais forte e vivo, é triste e escusado.

Contra, algumas confusões normais da malta aqui desta ilha em que vivemos. Sim, é realmente muito barato (3 dias, 17 euros). É verdade que o trabalho é voluntário, que é tudo para o partido, e que isso tem valor e é importante (quando é feito com convicção). Claro que, como todas as formas de participação doutrinária, há quem acredite e faça, há quem não acredite e faça na mesma, e há quem não acredite, quer faça ou não. No Avante vi muitos não acredito, mas faço (talvez por hábito). Numa barraca fomos muito mal servidos e o senhor do lado de lá respondia ofendido: “Somos voluntários, não recebemos nada”. Está certo senhor, mas nós pagámos, e a decisão de como funcionam, a vossa oferta (digna e meritória) não nos diz respeito, não é nossa. Claro que é normal neste país que isso aconteça, que as pessoas sejam mal servidas, sempre com bons argumentos. Mas, se calhar, a malta comunista poderia fazer a diferença. Mostrar organização, profissionalismo e simpatia... e muita, mas mesmo muita organização.

Resumidamente, foi muito bom, são apenas arestas para limar. Até porque acho que nem a organização esperava o banho de multidão que vi lá, a viver a festa comigo. Sim realmente é muito melhor dividir, do que somar. Mas se o fazem que seja por convicção, é que de outro modo, não vale a pena.

Como Dizia o Poeta

"Quem já passou por esta vida e não viveu
Pode ser mais mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou , pra quem sofreu

Ai quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada não

Não há mal pior do que a descrença
Mesmo amor que não compensa
É melhor que a solidão
Abre os teus braços meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer

Ai de quem não rasga o coração

Esse não vai ter perdão"

(Toquinho e Vinícius de Moraes)

sexta-feira, 2 de setembro de 2005

Eu, Naturalmente


Eu, naturalmente!!!

Realismo

Não sou apreciador do realismo. Não me refiro à corrente literária, mas àquele realismo ao qual as pessoas se agarram:"De um modo realista, tal e tal. Sejamos realistas, é preciso bla bla bla. Não nos acusem de falta de realismo..."

Não gosto! Acho que o realismo foi algo inventado pelos pessimistas deste mundo para se justificarem, para explicarem as suas posições ou para se desculparem quando as coisas correm mal.

Não gosto! Não aprecio essa forma calculista como analisam as situações, como escolhem estratégias ou posicionamentos. Claro que existe sempre um fundo racional e concreto a cada decisão que tomamos (ou é ideal que assim seja). Claro que a razão pode ser boa conselheira.

Não gosto! Porque tantas e tantas vezes o realismo acaba por pesar. Por desiludir, por deixar as escolhas meio abandonadas, já antes de iniciarmos os trajectos. Se não estamos convencidos, se realisticamente pode correr mal, então as forças faltam-nos, o amor e a vontade para o fazer.

Acho que o resultado final não depende só de nós. O meu amigo Data ( Star-Trek: Next Generation) recebe um conselho muito sensato do seu Comandante Jean-Luc Picard: “Às vezes podemos fazer tudo bem e mesmo assim não conseguir o que pretendemos!”

E para quem acredita nisso, que se convence que não basta só o que fazemos, que há muitas equações neste cosmo complexo, não poderá deixar de concordar que, se acreditar, se for convicto e cheio de esperança, se for bem disposto e alegre, pode não conseguir, mas de certeza que se diverte muito mais ao longo do caminho. E nem precisa de ser realista.

quinta-feira, 1 de setembro de 2005

Serviço de Urgência - 112

A título de informação breve confesso que ontem fiquei renovadamente surpreendido. Uma vez mais senti a necessidade de ligar para o 112. Estava a percorrer as ruas de Lisboa no meu carro quando, ao dirigir-me para um dos grandes cruzamentos, presenciei um quase acidente. Os semáforos desse cruzamento encontravam-se desligados.

Achei, como já o tinha feito anteriormente, que deveria telefonar para a Brigada de Trânsito a informá-los do que se passava. Como estava a conduzir e com o auricular, resolvi recorrer ao 112 (não tinha o número directo da Brigada).

E, o que me surpreende, é que aconteceu o mesmo que já tinha ocorrido em duas outras alturas: o telefone tocou, tocou, tocou e ainda tocou um pouco mais. E nada. Ninguém atendeu, ninguém disse para esperar na linha, nem para aguardar por uma operadora. Nada.

Agora uma de duas: ou estavam todos a lanchar, ou então têm forma de avaliar pelos toques do telefone a gravidade das situações, e perceberam que o meu telefonema não era caso de vida ou de morte.

Portal Português do 112


Sobre as Presidenciais e o Bochechas

Não posso deixar de fazer alguns comentários sobre o que se está a passar, no nosso país, relativamente às presidenciais.

Antes que pareça demasiado parcial gostaria de vos informar que sou um homem de esquerda, que acredito nos ideais da liberdade, da justiça social, e do direito ao trabalho, à saúde, à integração social e à felicidade.

Em primeiro lugar, gostaria de fazer alguns comentários sobre a minha reflexão: acho que independentemente do que aconteceu antes deste anúncio, quer tenha dito que sim ou que não, quer tenha sido a favor ou contra, é pouco relevante para a situação presente: daqui a alguns meses teremos de escolher o presidente do nosso país, e para mim, independentemente do meu gosto pessoal, só poderão sair dois vencedores (pela própria natureza da democracia): Cavaco Silva ou Mário Soares (e sim estou a presumir que Cavaco se irá candidatar), e essa deverá ser a maior reflexão dos portugueses.

Em segundo lugar, não podemos confundir as presidenciais com as autárquicas e neste momento estas últimas serão as eleições em que teremos de escolher, decidir, participar. (brevemente farei um comentário sobre elas)

No confronto entre Mário Soares e Cavaco Silva sou completamente a favor do primeiro. Explico-vos porquê:

Acho que a escolha que Soares fez é muito difícil e só a ingenuidade de algumas pessoas poderá levar ao pressuposto que o faz por capricho, vaidade ou orgulho. Um homem de 81 anos, com a sua carreira, com os cargos que já desempenhou, com a estabilidade financeira e familiar não tem mais de provar nada a ninguém.

Por outro lado, sem conhecer a sua vida privada, estou certo que a grande maioria dos familiares e amigos próximos lhe terão recomendado não o fazer, te-lo-ão pressionado para não o fazer, para deixar a sua carreira política por uma mais académica e tranquila, para deixar os trabalhos duros da política activa.

Acho que só mesmo o seu sentido cívico, o amor pelo seu país e a sua dedicação o levaram a tomar esta decisão, mesmo contra aqueles que lhe são mais próximos.

Por outro lado, nunca vi o nosso país no estado em que agora se encontra. Nunca vi, também só tenho 31 anos, uma crise económica tão prolongada, tantos problemas sociais (desemprego, endividamento, desilusão) como agora. Além disso, acho que vivemos num país do “põe a culpa no outro” e “tá sempre tudo mal”.

Sei que passamos momentos difíceis e também os sinto pessoalmente, mas também sei que somos pessimistas, que somos preguiçosos, e que adoramos intrigas e falsas questões para podermos debater: filosofia de café (chama-lhe uma boa amiga). Acho que olhamos para o nosso país com desencanto, com tristeza, com um olhar de quem vê tudo mal. Mas temos crescido tanto! Mas somos nós os obreiros do nosso país!

Por esta razão a candidatura de Mário Soares tem sido fonte dessa mesma malícia e desencanto: “É velho demais!”; “Mentiu quando disse...”; “Até já anda a trair os seus amigos!”

Independentemente da veracidade ou não das críticas que lhe são feitas, a pergunta que temos de fazer é outra. Todas estas questões são fruto da intriga política, são fruto de interesses mediáticos de ocupar manchetes, fazer notícias, arranjar patrocínios.

A pergunta que tem de fazer é: quem será melhor presidente? Quem melhor representa o país? Quem melhor garante a defesa dos nossos interesses quando confrontados com a constituição? Quem melhor nos representara internacionalmente? Quem melhor respeita as diferenças, os interesses de todos nós?

Se tiver que escolher entre Cavaco Silva e Mário Soares, eu escolherei sempre o Bochechas.

Para mim Soares é FIXE!

PS: Não se esqueçam: “Não perguntem o que o país pode fazer por vocês, mas sim o que podem fazer pelo vosso país!”