
Nas últimas semanas tenho pensado muito na relação que existe entre o amor e o desejo. Como podem ou não ser exclusivos, e como a nossa sociedade tenta permanentemente encontrar uma estrutura que nos permita gerir algo tão pouco "racional" e "ilmuminado".
Por razões que não me interessa agora abordar julgo termos chegado
ao momento mais elevado da nossa castração sexual.Nesse sentido, só conseguimos tender para duas dimensões diametralmente opostas, ou iguais: o liberalismo sexual extremo (e nesse sentido desconectado, infantil e irresponsável), ou a profunda preservação do corpo ao ponto de ignorar o que sentimos e somos (e nesse sentido infantil, irresponsável e desconectada).
Lidamos muito mal com o corpo e com os sentimentos que este nos desperta. Todos sabemos que existem mil regras sociais para o que é aceite ou não. E que essas mesmas regras provocam por si tantos comportamentos desviantes. Mas na realidade este é um mundo colorido. Homosexualidade, polisexualidade, sozinho ou em grupos, com ou sem adereços: na criatividade há um mundo de possibilidades.
Mas o problema é que nem conseguimos lidar com coisas tão simples como uma atracção (física, emocional, sentimental). Frases como: "estou a brincar", ou "mas sou comprometido", ou "mas ela é casada" são tantas vezes usadas como algema para a castração da nossa libido, ou até da curiosidade. A monogamia acaba por ser imposta e não conquistada. Não há espaço para a descoberta. E depois casamos, descasamos, traímos e somos traídos, temos filhos e deixamos de os ter. Temos amantes, namorados, affairs, esposas ou companheiros.
Por outro lado, ainda há uma noção quase "burguesa" que o amor verdadeiro só aparece uma vez e só se pode incidir sobre uma pessoa. E sobre isso (na série Bones):
Angela Montenegro: Tu tens esta noção burguesa...
Dr. Lance Sweets: Burguesa?
Angela Montenegro: ...que para o amor ser real ele tem de ser permanente. Não há nada permanente. Isto é um facto. Começamos e deixamos de amar outras pessoas, mas isso não faz o amor ser menos real.
Dr. Lance Sweets: Mm-hmm, talvez estejas a dizer isso porque nunca encontraste o amor da tua vida.
Angela Montenegro: Sim encontrei. Várias vezes.
Neste sentido acredito que o amor não é nem permanente, nem exclusivo por defeito. Ele só o pode ser por construção, por escolha, e por caminho percorrido (somos realmente uma sociedade sem noção da importância do trabalho e dos limites). Mas se não nos atrevemos a fazer as perguntas, a experimentar as respostas e a descobrir o nosso sentido que garantia temos de encontrar a felicidade?
Não sou a favor da irresponsabilidade sexual, mas acredito que o processo de auto-conhecimento do corpo, e o diálogo que ele exige, é fundamental para a evolução da humanidade. Dialogar, com palavras ou acções sobre o corpo, o sexo, as pilas e as vaginas, partilhar o que gostamos e o que tememos, o que queremos experimentar, vive tantas vezes aprisionado pela razão, pela vergonha ou pelo medo, que nunca conseguimos chegar a descobrir o que somos, e o que queremos.
O nosso corpo é expressão maravilhosa da nossa alma, e a sua aventura torna-nos maiores.
Por isso o diálogo é preciso, sem certo, nem errado, e com coragem de experimentar, de ser responsável e sensato nas suas descobertas, e na procura do que nos dá prazer e quais são os limites que isso encerra.
Isso é amor por nós!