domingo, 29 de janeiro de 2006

Mas afinal é preciso Disciplina?


Tenho estado pacientemente à espera de celebrar as duas mil visitas ao meu site para escrever sobre este tema que surge na sequência natural de tanta coisa que tenho escrito anteriormente.

A questão da disciplina é uma de difícil análise. Não só pela própria natureza da palavra, como também pela proposta que representa na nossa vida.

Acho que pela sociedade ocidental em que estamos inseridos, somos formados com a convicção de que a disciplina é algo de desagradável, de duro, de militar, de escolar, que nos aborrece e nos incomoda. Os pais diziam: “Tens de ser mais disciplinado!” quando as notas não eram as que se esperavam, ou se não conseguíamos ter o quarto arrumado, ou se não conseguíamos pôr dinheiro de parte no porquinho.

Por outro lado, vivemos num mundo de dis-disciplinação. Hoje, ao contrário do que julgo fosse comum há algumas décadas atrás, as pessoas não são responsabilizadas. Não temos de assumir as consequências nos nossos actos. “Foi o cansaço… Foi a doença … Foi o chefe… Foi a mulher…” Foi sempre qualquer coisa. E apesar disso vamos vivendo, ou sobrevivendo.

Por outro lado, as pessoas com que nos deparamos como modelos de disciplina surgem sempre com um ar um pouco assustador. Como se representassem uma vida sem emoção, sem humor, e com muito, mas mesmo muito trabalho. Depois ainda tem a lata de dizer coisas do género: “A genialidade é 95% de trabalho e 5% de inspiração.”

Ora bolas, mas não haverá algo que dê menos trabalho?

Realmente sinto que a solução para este meu dilema é a constituição de uma nova disciplina, ou melhor, uma auto-disciplina, positiva e afirmativa, onde me “forço” a fazer o que sei ser o melhor para mim e não me refugio numa certa preguiça existencial. Amanhã, começo amanhã.

Apesar de todos os sentimentos incómodos em relação a essa disciplina, estou certo que esta representa o melhor para mim. Para todos, ou pelo menos quase todos, a força e a determinação para se fazer o melhor.

Porque se temos todas as ferramentas e condições (a maior parte das vezes) para sermos felizes, porque é que não o somos?

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

A preto e branco, no sítio certo...

E pronto…


Estas eleições presidenciais não foram fáceis para mim. Não costumo envolver-me muito com a política, nem em particular com as eleições. Normalmente, sei, bastante tempo antes, em quem vou votar. Normalmente voto tranquilo, normalmente…

Desde as últimas eleições que as minhas dificuldades têm aumentado. Ando mais indeciso. Mais vacilante em relação ao que considero o melhor para o país. Sobre se a minha escolha neste ou naquele partido ou político vai alterar ou importar para o resultado final.

Estes dilemas tiveram significado ainda maior para as eleições presidenciais. Confesso que sempre fui anti-Cavaco e nesse sentido teria apenas a hipótese de escolher entre cinco candidatos e foi aí que se levantaram os meus grandes dilemas. Isto porque acreditei que não podia votar em branco, porque só votando num candidato de esquerda, permitia ou daria oportunidade para uma segunda volta.

Além disso sofro de um problema inverso ao que se diz normal. Em tempos idos ouvi dizer que na juventude todos são de esquerda, e na vida adulta de direita. Ora para mim parece que me ocorre o inverso, sinto-me progressivamente mais distante da direita.

Talvez também por isso, acabei por votar em Jerónimo de Sousa. Pela razão que reconheci nele uma força, uma vontade e uma sinceridade, sem exageros, sem retórica, sem pseudo-elitismo. Confiei que ele seria, na minha sincera opinião, o melhor presidente para o país. Um presidente comprometido, interessado, empenhado e sincero. Objectivamente, sabia que não seria presidente, mas foi acima de tudo um voto de confiança.

No entanto, a razãoque me levou a escrever esta crónica está na importância do que aconteceu, não antes, mas sim no fim da noite eleitoral. Acho que se tem de dizer as coisas pela positiva, as que realmente importam e têm valor. E por isso cá vai:

Primeiro, tenho de dar os parabéns a Manuel Alegre. Decidir avançar com a campanha, independentemente dos apoios. Mostrar a força e a determinação que mostrou, o amor ao país, e a capacidade para o materializar julgo que garantiram o resultado que obteve. Alegre mostrou que a democracia não é apenas partidária, é feita de pessoas determinadas, empenhadas e com confiança. Mostrou que o querer e a vontade individual têm peso no resultado final de umas eleições. Uma grande lição de civismo e de democracia. Julgo que esta ficará recordada na história.

Segundo, como eu, alguns portugueses acreditaram em Jerónimo de Sousa, e o resultado que obteve foi proporcional à força de carácter que demonstra. E maior ao que normalmente o Partido Comunista capta.

Terceiro, hoje, a ouvir o futuro Presidente da República Cavaco Silva descobri que o meu anti-cavaquismo se tinha diluído. Na realidade, acredito que pode ser um bom presidente. Que poderá ajudar o nosso país. E que, no mínimo, tem a vontade para o fazer.

Dou-lhe o meu voto de confiança, já que o outro não dei, e desejo-lhe competência, sinceridade, dedicação e, acima de tudo, muita imparcialidade.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Ainda sobre a Paternidade

Sem dúvida que independentemente dos acontecimentos e fenómenos das nossas relações com os membros paternais há algo que lhes temos de dar crédito: Eles sabem produzir crianças que se tornam pessoas de considerável qualidade :D

segunda-feira, 16 de janeiro de 2006

Quem sai aos seus não degenera


Quando era pequeno, por razões próprias da minha estrutura familiar, acreditava que a minha mãe era Santa Maria, mãe de Bernardo, e o meu pai uma espécie de Mefistófeles exótico.

A minha família era eu e a minha mãe, e de alguma forma, isso era suficiente para me sentir seguro e feliz. Todas as virtudes assentavam que nem uma luva à minha mãe e, por essa razão, a sua companhia era fonte de grande alegria.

Durante muito e muito tempo foi assim que me senti, e pensei sempre que seguir os seus exemplos, transformar-me nela, seria o meu objectivo e propósito.

Com o avançar da adolescência fui descobrindo que as coisas não eram assim lineares. Que a minha mãe, como o meu pai, tinham qualidades e defeitos e era dessa combinação que eu tinha surgido. Qualidades e defeitos.

Depois destas constatações passei a uma nova fase de reflexão e de embirração. Olhando para os meus pais era fácil enumerar a lista de coisas que não gostaria que eu fosse quando “crescesse”. Não queria ser demasiado curioso, ou demasiado distante. Não queria ser demasiado depende, nem demasiado independente.

Nessa fase pós-adolescência e começo de vida adulta concluímos que quando crescermos não queremos ser isto, nem aquilo, baseado principalmente nos comportamentos de quais discordamos materializados nos nossos pais.

O que é curioso [parece sempre que tenho uma curiosidade a jeito para transmitir] é que com o passar o do tempo vamos confrontando-nos com algo estranho: fazer exactamente aquilo que criticávamos nos nossos pais.

Isso é particularmente assustador, quando despendemos tantas energias a negar essas características que agora parecem comodamente alojadas em nós. E se há umas menos assustadoras, há outras que não queríamos mesmo ter.

Para os mais interessados na questão da ciência, poderemos falar de como os nossos genes são preenchidos de código genético parental e familiar. E que por muito que se queira não os podemos remover, apagar, ou vender a quem os quiser. Nesse sentido, existe algo já programado em nós. Algo que vem deles, e que também nos tornamos.

Outros mais esotéricos poderão afirmar que temos os pais que escolhemos, tipo aquela lista de fotos policiais que vemos nos filmes: “Estes não... estes não... Sim! Quero nascer com estes pais.”

Confesso que seja qual for a versão a minha dúvida é a mesma: poderemos contrair essas características parentais que tanto nos incomodam? Dentro deste contexto houve quem me dissesse que se já temos consciência delas, claro que as podemos contrair, dissolver, gerir ou substituir.

Mas eu não tenho a certeza. Tenho apenas a certeza que somos filhos de quem somos, com as características que têm e que não se podem trocar. Mas uma vez mais fica a pergunta: somos fruto de um passado pré destinado, ou temos a possibilidade de escolher o que queremos ser? Podemos fazer os genes se tornarem recessivos, ou eles têm vontade própria?

Reflexão

O ponderar e o ver nao são a mesma coisa,
como a mente e a alma não são a mesma coisa.

Desculpem?!?!

Naquela tarde fria, estava sentado à frente do computador a trabalhar quando o telemóvel começa a tocar. Levantou-se da cadeira e viu um nome habitual no ecrã: "Mãe".
- Olá mãe, boa tarde. - afirmou a voz bem disposta.
- Olá filho, como tás?
- Estou bem, mas aqui a meio de umas coisas que preciso de acabar. Precisas de alguma coisa? - perguntou a voz sem desligar a cabeça das coisas que tinha para fazer no computador.
- Sim, o teu pai fez anos ontem, e só me lembrei agora, mas não tenho o telemóvel dele. Será que me o poderias dar. Queria mesmo dar-lhe os parabéns. Disse a mãe de voz animada.
- Sim, claro! - respondeu a voz atrapalhada, esta confraternização depois de tantos anos era original.- É o XXX XXX XXX.
- Obrigado filho, até logo.
- Até logo mãe!

------------ Duas Horas Depois -------------------------
Toca de novo o telemóvel. "Muito animado anda o telemóvel hoje", pensou. No ecrã aparece um nome menos comum: "Pai"
- Olá filho, boas tardes. Estás bom?
- Sim pai, claro e tu?
- Sim tou óptimo. - diz a voz sorridente - Sabes como sou aselha com os telemóveis. A tua mãe mandou-me uma mensagem de parabéns que queria responder, mas sem queres, apaguei a mensagem dela. Podes-me dar o seu número de telemóvel?
- Uhhhhh. Sim claro pai. É o XXX XXX XXX.
- Ok já escrevi, bom trabalho filho.

"Desculpem ?!?!"