sábado, 24 de dezembro de 2005

Ode ao Senhor Vasco ou “Olhe, podia fazer-me um favor? Podia dizer-me que horas são? Obrigado e Bom Natal!

(Já há muito tempo que penso escrever sobre o Senhor Vasco. Sobre a sua pessoa e a forma como se relaciona com o mundo. Agora, chegado o Natal achei que seria apropriado fazer a ponte entre as dois coisas e por isso aqui vai este presente de Natal)

Desde que vim morar para a minha nova casa, há cerca de três anos, conheci o Sr. Vasco. O Sr. Vasco mora numa casa com ar abandonado, mesmo na rua em frente à minha. A casa dele é muito velha e bonita. Tem um portão verde, tem muitos gatos, tem janelas com ar partido e tem, mais importante que tudo, uma grande varanda com vista para a rua. Esta varanda é coberta de uma planta a qual não sei o nome, mas que na primavera está cheia de flores avermelhadas, que no verão dá sombra e que agora já dentro do Inverno, se encontra despida de flores e folhas.

Esta varanda é particularmente importante porque imagino que tal como eu, toda a gente, ou quase toda a gente, conheça o Sr. Vasco através da varanda.

O Sr. Vasco é um senhor já idoso, com cerca de 80 anos, com um farto bigode, um cabelo grisalho sempre coberto com um boné, e uns óculos de massa também espessos.

Até aqui nada de particularmente singular sobre o Sr. Vasco, mas na realidade ele tem algumas características únicas. A primeira vez que o encontrei na sua varanda estava a caminhar distraído para o meu carro e ouço de repente: “Tá-me a ouvir aí em baixo? Se faz favor?”. Ao que eu respondi: “Sim, claro, bom dia.”. Ao que ele disse: “Olhe, podia fazer-me um favor? Podia dizer-me que horas são?”. Ao que eu lhe respondi dizendo as horas e ele devolveu-me um “Obrigado”.

“Ok” pensei eu, se calhar não consegue ver as horas por causa dos óculos. Que velhinho bem educado e simpático. Mas aí ocorreu a surpresa. Dez segundos depois de me perguntar, já estava a fazer a mesma pergunta à pessoa a seguir. Aliás, como vim a descobrir depois, ele “ataca” quase todas as pessoas que passam pela rua, nem que venham seguidas umas atrás das outras, e obviamente quando está á varanda.

Vim também a descobrir outra coisa. A outra pergunta típica era: “Olhe, posso pedir-lhe um favor? O portão tá aberto?”. Claro que nunca o vi aberto. Aliás quase nunca vi ninguém entrar ou sair da dita casa. “Olhe – continuava o Sr. Vasco – se alguma vez vir o portão aberto, feche-o, por favor!”

Claro que eu percebia com mais facilidade esta segunda questão. Porque apesar de ainda não ter explicado, o Sr. Vasco mora ao lado de uma escola secundária. E os miúdos imagino eu, não lhe ligam nenhuma, e podem até com aquela malandrice típica da adolescência preparar-lhe algumas partidas, pelo que ele se sentiria seguro em ter o portão fechado.

Desde esse momento fantástico eu fui acompanhando o Sr. Vasco, desde a janela da minha casa, pela surpresa que me causava, e pela curiosidade em ver a reacção das pessoas.

Numa primeira fase, ainda presumi que o Sr. Vasco podia já não estar a funcionar bem com a cabeça dele. Que tivesse memória curta, que tivesse uma doença qualquer que o fizesse repetir muitas e muitas vezes o mesmo padrão. Mas não é nada disso.

Descobri que ele sabe efectivamente as horas. Mais do que uma vez assisti aos miúdos da escola a darem-lhe horas completamente fora da realidade. “São 120 para as 35.” Ou então “São 3 da manhã”. E para minha surpresa o Sr. Vasco reagia com a energia possível “Mal educados! – gritava ele – gozar com um senhor de idade não tá certo.”

E passados 10 segundos lá estava ele a repetir a mesma pergunta.

Também descobri que existem momentos que lhe eram favoritos: a ida e vinda das pessoas para uma igreja da vizinhança. Para celebrar a eucaristia. Eram sempre alvos perfeitos, talvez por deverem ter um coração cristão e por isso encherem-se de paciência para lhe dizer as horas.

Ou então, com menos sucesso, as horas de entrada e saída da escola. Em que os miúdos não reagiam tão bem. Julgo que para os miúdos a pressão social seja muita e por isso responder ao “velho maluco” faria deles vítimas de gozação da escola e por isso reservavam-se ao silêncio.

Aliás, o Sr. Vasco tem um método delicioso para os que não ouvem, ou fingem não ouvir. Junta as duas mãos na boca e grita: “Está a ouvir-me? Aí em baixo consegue ouvir-me?”.

E grita tão alto que até as pessoas do meu prédio por vezes aparecem na janela com surpresa.

Claro que quando não o ouvem ou fingem não ouvir, o Sr. Vasco também não se aborrece porque deve respeitar a surdez e saber que se não lhe ligam, o melhor será deixá-los ir.

Por outro lado, as velhinhas do meu prédio fartam-se de queixar do Sr. Vasco. Se calhar porque vêm nele a sua própria velhice. Ou então, porque realmente quando ele começa pode ser cansativo ouvi-lo sempre a dizer o mesmo.

Alguns meses para dentro deste fascínio pelo Sr. Vasco comecei a encetar conversas com ele. Dizia-lhe bom dia. Perguntava-lhe como tinha passado. E ele adorava. Claro que tinha também outra frases predefinidas. Perguntava-me se ele me conhecia. Ao que eu respondia que sim. E ele dizia-me então. “Sempre que me vir diga-me Olá Sr. Vasco, eu sou o Bernardo o seu vizinho que moro naquele prédio ali.”

E eu dizia. E ele nunca se lembrou. Pelo menos na cabeça. Porque nos olhos acredito que sim. Há algo que me reconhece tal como há algo em mim que o reconhece a ele.

Ainda mais o Sr. Vasco aparece na varanda a qualquer hora, do dia pelo menos. E já muitas vezes o vi de pijama perto das 8 da manhã a perguntar as horas, sem robe nem nada, ao frio. Sempre lhe tentei dizer que deveria ir para dentro para não apanhar frio. Mas depois conclui que lhe estava a dizer para deixar de fazer o que gosta. E se aos oitenta e tantos anos estava na varanda de pijama é porque se calhar é á prova de constipação.

Sinceramente tenho um fascínio pelo Sr. Vasco. Pela forma como vive. Pelo mistério da casa onde vive, onde nunca vi luz de noite. Por estar sempre sozinho e me perguntar quem o ajuda, como come, como se veste, etc.

E mais ainda porque passei muito tempo a pensar no ritual das horas. No ritual das perguntas. E acho que depois do que se passou nos últimos dias já cheguei a umas conclusões.

O Sr. Vasco agora, depois de esclarecido sobre as horas, incorpora a seguir ao Obrigado, um Feliz Natal, ou umas Boas Festas no seu discurso. E fá-lo com tamanha alegria e convicção que confesso que me comovo.

Agora tenho a certeza, não somos ninguém sem o outro. Vivemos num mundo onde a pessoa há nossa frente, ou mesmo na nossa rua, representa uma alteridade necessária ao ser. E o Sr. Vasco é a prova viva disso. Aliás acho que as horas não importam nada. Foi a forma que encontrou de conseguir sempre que alguém lhe responda. Que olhe para ele. Que lhe dirija a palavra. Não digo isto com pena ou tristeza dele, pelo contrário, acho que encontrou uma forma muito inteligente de conseguir interagir com as pessoas, com o mundo à sua volta.

Claro que umas vezes com mais e outras com menos sucesso. Aliás fico sempre surpreendido quando as pessoas não lhe respondem ou são mal educadas com ele. Porque dizer as horas, mesmo que não se queira dizer mais nada, são apenas instantes da nossa vida. Mas são horas da vida dele.

Não sei como será a minha terceira idade. Melhor ou pior não interessa. Mas na terceira idade do Sr. Vasco sobrou o essencial, a necessidade de carinho, a necessidade do outro, a necessidade de atenção.

E eu fico aqui a pensar quantas pessoas na nossa vida, nos perguntam as horas apenas por necessitarem de algo que não sabem explicar. E por quantas passamos sem parar, e ás vezes sem responder.

O Sr. Vasco representa para mim os outros todos que tantas vezes precisam de algo, que há primeira vista não se vê, mas que ao olhar com atenção se torna claro. Ele representa a minha procura pelo outro, por compreensão, por partilha.

Não somos ninguém sozinhos. Somos parte constante e fundamental desta relação de diversidade e multiplicidade. Somos melhores juntos. Acho que é isso que o Sr. Vasco me mostra.

E já agora, podiam fazer-me um favor, se me conseguem ouvir daí, e dizer-me as horas?