terça-feira, 20 de maio de 2008

Guiné, amor de pai...

Em 1974, o dia que deu luz à vida de tanta gente afectada pelo poder exarcebado, foi a uma quinta-feira. Na sexta-feira nascia eu, mas seis anos depois, em 1980. Ainda hoje, tenho a mania ignorante de perguntar à minha mãe como é que foi aquele dia, esquecendo-me que não rebentei com a Revolução.
Por sorte não fiquei com o nome Ana da Liberdade que o meu irmão, com mais oito anos do que eu, tanto desejava. Não fiquei com o nome, porém... a minha rebeldia, a força de persistir e de ir à luta sempre me acompanharam. Sinto que fui banhada pela conotação do grande dia. Desde cedo que as pessoas encontram justificação para os meus actos, através da data do meu aniversário. No fundo, eu penso que também o faço.
Embora este dia seja significativo pelo que já descrevi, é ainda mais relevante por ser sinal que injustiças tão cruéis, feitas a homens sem culpa de estarem neste país em anos errados, foram claras, porém nunca apagadas.
Como homenagem ao dia do meu nascimento, tudo o que posso reunir referente à data mais pesada, pela carga negativa que teve de libertar, eu junto numa prateleira do meu quarto que pode, porque vivo depois de Salazar e seus discípulos, ser decorada pelos livros vermelhos, por páginas declarando a sua maldade. A minha família foi afectada por esses tempos. E bem afectada...
Recordo-me de em pequena ir acordar o meu pai e este levantar-se ao gritos, agarrado ao seu braço. Ainda não tinha conhecimentos suficientes para entender o porquê, no entanto já gostava de ver as suas fotografias na Guiné, ao pé da sua tabanca, apertando o mamilo de uma indígena, ou a simulação de uma operação, para além daquelas em que o meu pai parecia um cadáver, mas brincava sorridente com um macaco, para que quando a fotografia chegasse à metrópole, às mãos dos que o amavam e também dos que nada percebiam do que estava a acontecer, como o meu irmão, não ficassem mais derrubados do que já estavam.
Lembro-me também de uma manhã de sol que foi marcada pela queda provocada do meu pai. Hoje, julgo que ele estava a tentar defender-se de algo. Mas, naquele momento, nada entendia. Tal como, concerteza, o meu pai não entendeu porque é que esteve, quase cinco anos afastado da sua família e longe do seu país, respectivamente dois e três anos. Primeiro foi a tropa em Coimbra e Leiria e, de seguida, a ida para Guimpará.
A minha curiosidade levou-me a ler as cartas trocadas naqueles anos. As lágrimas não podiam ficar guardadas. É triste saber que a minha mãe se casou com um homem e viveu vinte e seis anos (mais ou menos) com outro totalmente diferente, vincado por cenários que nada tinham a ver com os de um filho único protegido por seus pais. Um recém-casado que era informado do seu primeiro rebento por telegrama. Ou que recebia os parabéns em papel esverdeado, com umas fitas brancas preenchidas com poucas palavras, porque nos anos 70 portugueses não havia tempo para a família, como tantas vezes ouviram paradoxalmente Salazar proferir: “Pátria, Religião e Família” –
grande triologia. Que cinismo!
O meu pai soube do primeiro dente do meu irmão através de uma carta, tal como soube das suas dores e alegrias, sem ter espaço para interferir nos primeiros tempos de um fruto seu. Ainda hoje e, cada vez mais, atribuo a separação dos meus pais àquele sistema que fez das nossas vidas, as suas paranóias, os seus caprichos e, sobretudo, a sua ignorância.
Vocês não sabem a fúria que tive de conter um dia destes, quando vinha no 46 para Santa Apolónia e no banco de trás um senhor de origem africana dizia que o que falta em Portugal era um homem como Salazar, pois assim não existiriam drogados e violência. Dei tantas voltas naquele banco para não explodir ali e naquele momento. Na minha opinião, não haveria essas características que se sentem na nossa sociedade, porque o próprio tinha a capacidade de produzir a sua particular e muito específica crueldade e dessa fazia parte a droga administrada nos homens que ele escolhia para suas vítimas. E ainda gostaria de salientar que provavelmente o ser que proferiu tais palavras naquele autocarro não deve ter consciência da luta que se travou entre o seu povo e as cobaias de Salazar.
É sentida que dou o meu testemunho. Não se pode pensar no 25 de Abril como a grande festa, esquecendo-nos do significado da mesma perante o passado político do qual nos libertou. Quando digo nós quero englobar esta nova geração que não presenciou o momento, mas que muito beneficiou dele. Como gostaria de ter estado no Maio de 68, em França; também adoraria ter sido absorvida pela beleza daquela quinta-feira, pela magnitude de passagens da nossa história, às vezes, pela distância, esbatidas com outras cores. Recordemos Catarina Eufémia e nomes para com os quais devíamos ter uma atitude de gratidão.
Muito ainda vos poderia dizer, porém seriam pormenores, pois o fundamental é termos a ideia nítida dos pilares do Estado Novo que de novo só tinha a inteligência planeadora do homem que, por mim, nunca deverá ser encarado como o Salvador, até pelo contrário, entendo-o como Serpente, cujo poder não partiu com o seu corpo. Como já ouvi dizer... “Bem-dita cadeira!”.


Ana Filipa Silva - 1998