sexta-feira, 9 de maio de 2008

Num tal cabeleireiro...

É só “tias”!
“Está lindíssima!”- diz uma mulher alta e bem vestida, com um ar de rica e voz bem acentuada pelo seu meio.
Aqui há gente para tudo. Para orientar o trabalho, para lavar o cabelo, para secar, para cortar, para dar conselhos, para pintar... Enfim! É um mar de gente!
Tudo é chamado por “senhora Doutora” ou, então, nem se chama. As mulheres, muito bem vestidas e pintadas, pavoneiam-se com estas futilidades que fazem uma mulher feliz.
“A senhora... (nome estrangeiro que parece marca de um vinho ou talvez um carro).” - diz uma orientadora para a senhora Mary. Podia chamar-lhe Maria, mas em inglês é mais chique.
É um meio tão pomposo e tão irreal, onde tudo tem a maior importância ou, então, a menos possível. Todas já se conhecem e têm um ar de família. Realmente, é esta a família que faz a elite, existindo por consequência e desejo, ou arrogância, uma grande divisão entre a esta e as outras classes sociais.
Uma grande inovação, para mim, que no meu meio não existe... é a do bar no cabeleireiro. Um senhor, com a farda apropriada, leva numa bandeja um café com um copo de água à chiquérrima que é arranjada pelos mais bem pagos, pelo menos em gorjetas.
As mulheres, além de bem vestidas, penteadas e pintadas, também são bem feitinhas, aqui não existe, as gordas desproporcionais. Ou, então, disfarçam muito bem.
Eu, de cabelo curto e sendo uma rapariga modesta, sou atirada para um canto do enorme andar que dá lugar a este centro de negócios e coscuvilhices. Negócios, por ser um cabeleireiro de ricos, e coscuvilhices, por ser um local de conversas sobre as festas e coisas do género.
Claro, eu não tenho um nome estrangeiro e não sou filha do dono da fábrica Renault, em Portugal, como, também “deveria” ser filha de um homem com nome e tradições na família. Não! Sou uma simples rapariga, mas sou feliz, mesmo sendo menos possibilitada monetariamente e não me sendo permitido entrar aqui e ter as pessoas aos pés.
Embora me chamem “Menina...” por gentileza e até sorriam, não me conseguem agradar do mesmo modo como se me tratassem normalmente e com menos indiferença mesclada como com vedetismo.
Ser desta elite... Vejo que é uma grande traição. Mas não pertencer a ela, é uma grande dor, provocada pela estupidez desta gente. Em Portugal, país de tradições, vai-se copiando negativismos desnecessários à nossa sociedade. Já não vivemos em comunidade. Vivemos em comunhão... Cada um com a sua, só que poucas vezes são solenes pela partilha, pois é comunhão sem ser comum.

Ana Filipa Silva - 08 de Janeiro de 1998