terça-feira, 29 de abril de 2008

O emergir de recordações


Queria escolher um livro. Fui à biblioteca com o Miguel, um rapaz do Tortozendo, meu colega de universidade. Peguei em Urbano Tavares Rodrigues e José Saramago, mas acabei por trazer «A Lã e a Neve» de Ferreira de Castro, pois o meu companheiro de aulas disse-me: "Este livro fala sobre a Covilhã!" e como, para mim, esta cidade é resultado da fusão entre a cidade suburbana de Lisboa, de onde vim, e a aldeia, na qual passei os meus tempos livres, o que alberga os fins-de-semana e férias fiquei curiosa sobre a real qualidade da narrativa, para além de que não o queria decepcionar.
Confesso que a primeira impressão não foi das melhores, não apenas pelo esforço de leitura que implicava a grossura do volume, mas também porque não era meu hábito ler obras do género, no entanto quando comecei, verifiquei a facilidade que Ferreira de Castro em absorver o leitor na sua escrita. As folhas foram passando para trás de uma forma muito rápido, pois estava fascinada pela realidade descrita e pela semelhança dessa com a do lugar onde os meus avós moram.
As vivências de Ortiga emergiram em cada passagem. Era como se acordasse, em mim, acontecimentos esquecidos no fundo da minha memória. Reconhecia em cada imagem aquele espaço em que me desenvolvi, mexendo na terra, respirando aquele ar puro e recebendo os ensinamentos dessa experiência.
...de lume aceso no Inverno e porta escancarada no Estio. É assim a vida daquela gente que se torna íntima pela relação tão próxima que têm. As casas são quase pegadas, quintal com quintal, os produtos daí provenientes são trocados por outros de outros quintais ou por o que os animais criam. É esta abertura que me espantava, pois, no apartamento em que vivo, a porta tem de estar bem fechada, para que ninguém venha pedir ou tirar sem licença o que não é deles, e no prédio, de manhã, é raro ouvir uns Bons-dias!, com alegria e vagar. Normalmente, ouve-se um Olá! Muito apagado.
Também no Inverno, escutava ...histórias que os pegureiros contavam, ao lume, a encher de terror as noites infindas. Em Ortiga, não são os guardadores de gado, mas sim, os meus avós que relatam os tempos difíceis por que passaram, que animadamente dizem as lengalengas e cantilenas dos antigos, sem esquecer o espaço para a crítica aos mais novos, por esses não pedirem a benção ou outra coisa qualquer.
Á noite, o frio torna-se mais intenso, por isso a necessidade de estar á lareira, como se quisessem guardar o hábito da época em que não havia televisão e aquecedor. Lembro-me das noites que depois dos bailes na Liga Regional de Melhoramentos de Ortiga acabavam e eu, com a minha mãe, esperávamos pelo meu pai no carro; quase chorava pela geada que caía e fazia arrefecer o meu corpo de tal maneira que nem encolhida afastava aquela baixa temperatura. Mas ao chegar á cama a situação não mudava muito, já que os lençóis pareciam gelo e demorava muito tempo até que pudesse esticar os pés e sentir-me totalmente confortável. Era caso para dizer: -Vá uma noitinha para rachar, hem?
Fugindo ao ambiente de suas casas, ao ruído e movimento da filharada, os homens vinham para ali, naquele período de Inverno, jogar a bisca e cavaquear. A ausência de mulheres, de crianças e dos problemas domésticos dava-lhes uma efémera sensação de evasão. Talvez fosse o mesmo motivo e sensação daqueles que procuravam a associação recreativa de Ortiga. Por exemplo, recordo-me das noites de Natal, em que o meu irmão e pai saiam para lá, ficando as mulheres e o meu avô em casa, a fazer filhozes, algo que eu muito gostava. Depois disso, eu e a mãe íamos Ter com eles ao café da Liga. Confesso que era uma altura triste!
Para finalizar, as frases referentes á criação de ovelhas e de cabras, elevou á memória os queijos que a minha avó fazia (apreciados por toda a família) e a coalhada que eu tanto gostava e que substituía as refeições, das quais o prato não me agradava.
Realmente, são nestes cincos aspectos, nos quais está muito patente o Inverno eo frio que faz da Covilhã a Cidade Neve, que se encontram os pontos comuns entre esta e a freguesia onde os meus avós habitam. Contudo, a Covilhã actual torna-se parecida á junção de Ortiga com Póvoa de Santa Iria, local onde tenho residência.
Assim, não poderia deixar de apelar á leitura desta obra, pois ela faz-nos recordar ( E recordar é viver! ), retratando uma época e cidade muito particular, mas também bastante abrangente, não só em termos dos pontos em comum com outras terras, como também, nos dias de hoje, através do seu corpo de estudantes universitários, vindos de todos os pontos do país e de alguns de Espanha, Polónia, Itália e França. Sem dúvida que o livro falava!

Ana Filipa Silva - 1998