terça-feira, 3 de janeiro de 2006

Ao meu avô Gualdino

Querido avô:
Nestes últimos dias tenho pensado muito em ti. Talvez seja esta avaliação que fazemos sobre o tempo que passou no ano anterior. Ou se calhar os meus trinta e um anos (a reflexão dos trinta). Já passaram tantos anos desde que partiste e tenho saudades. Muitas saudades.
Lembro-me tão bem dos momentos em que estivemos juntos. Recordo estar sentado ao teu lado, quando me tentavas ensinar a caligrafia (em que era tão irregular) e tentavas que escrevesse as letras todas para o mesmo lado, numa linha direita. E para mim isso era um desafio enorme.
Acho que sempre quiseste que fosse mais “direito”. Nessa altura, as minhas questões eram bem mais simples, e os desafios eram outros: se estudava ou não, se me portava bem ou não, se eram um “bom rapaz”, se ajudava a minha mãe.
Senti sempre esse enorme amor que tinhas por mim, o orgulho no teu rapaz e o teu sonho de ser maior e melhor todos os dias.
Às vezes penso, se fosses vivo, se te orgulharias do caminho que escolhi para mim, se sentir-te-ias feliz por me ver hoje, com casa própria, a arriscar no que acredito ser o melhor.
Foste sempre uma das grandes figuras masculinas da minha vida, e para um rapazito que vive só com a mãe, isso era tão importante. Até porque tu eras um modelo de peso. A minha mãe e a minha avó sempre te elogiaram tanto. Sempre me disseram tantas coisas bonitas sobre ti. A forma como agias na tua vida. A responsabilidade e a força quando dela precisavas.
Foste sempre um suporte para os que te rodeavam.
Não me esqueço nunca de me teres ensinado a andar de bicicleta, no jardim do liceu. Lembras-te? Eu a pedalar com força a tentar não cair e tu, atrás de mim, agarravas a bicicleta e corrias. “Vá, pedala! Não tenhas medo.” E eu pedalei. E quando olhei para trás, já estava sozinho a pedalar feliz e tu para trás a rir de eu nem ter percebido.
Sempre foste assim. A suportar a minha caminhada.
Quando partiste ainda era pequeno. E nessa altura fizeste-me muita falta. Com o passar do tempo as coisas mudaram e aprendi a viver sem ti.
Agora, pensei nestes dias tanto em ti. Não sei bem o que sinto do que fiz e até onde cheguei. Não é fácil ser-se “grande”. E tu que nunca pudeste ser pequeno. A tomar conta da tua mãe e das tuas irmãs. Foste para a Marinha e sempre viveste no mar. Adoravas os motores e a tua oficina, onde construías tantas obras. Será que é por isso que gosto tanto de obras e pequenas reparações?
Hoje precisava de ti aqui do meu lado. De falar das coisas que me custam e que não sei ultrapassar com facilidade. Conselhos de avô. Sinto-me neste ponto de viragem da minha vida. E nem sei explicar-te bem. Parece sempre que vivo apenas parte do potencial que poderia ser. E com dificuldade em encontrar as forças para ser mais. O que farias tu?
Tantos sonhos, tantos projectos. E ainda tanto para fazer e ainda tanto para aprender. Quando te via de mão dada comigo, naqueles passeios sem fim onde eu falava e falava, e tu sorrias em resposta às minhas invenções. Eras tão adulto, tão sensato e tranquilo.
Agora que sou maior, olho para mim e não sei bem se cresci assim tanto. Ainda sinto a falta de alguém que me dê a mão e que acredite em mim.
Sei que estás no meu coração e que a mão que procuro é a minha. Mas era tão bom que estivesses comigo. Me falasses dos teus navios, de Africa, da minha mãe e da minha avó. Da força e da vontade, do amor, da capacidade que tinhas de construir e armazenar.
Tenho saudades tuas avô. Muitas.