terça-feira, 22 de abril de 2008

São vinte!


Pago a renda da Casa da Morte todas as vezes que tenho apetite. Trezentos e sessenta paus pelos vinte pedaços que se alojam no meu peito. Dinheiro que só tem como positivo o consumo e, logo, capital em circulação, mas só mesmo isso.
Se me perguntarem por que o faço, não sei. Talvez por problemas psicológicos ou, então, por parvoíce. Que engraçado, eu sou a casa do meu organismo e do meu pensamento. E esses alojam pequenos circuitos e elementos menores dentro deles que, por sua vez, têm como habitantes outras pequenas coisas. E eu... vivo na minha casa, onde coabitam outros seres e objectos... a minha casa localiza-se noutra casa, a freguesia onde moro, que se situa num determinado concelho, distrito e província... e, claro, todos juntos, casinha mais casinha, habitamos o mundo, o globo terrestre e o universo e a galáxia...
Mas o que pago é a renda da Casa da Morte. Pedaços de poluição que se aninham nos meus pulmões... Vinte, sãos vinte as balas de cada compartimento da casa. E parece que vai crescendo conforme as necessidades... passa a vivenda, a mansão e o aldeamento... São vinte!

Ana Filipa Silva - 1998