quarta-feira, 7 de setembro de 2005

Caminho de Santiago 1

O mar visto daqui parece imenso, sem fim, sempre azul esverdeado. Há um sentimento de paz, de força interior. Que belo este mar. Mar que nos liga, mar que nos dá vida, que nos alimenta, que nos refresca.

Saí do carro e subi as pedras intemporais que pairavam no alto do monte. Visto daqui, tudo parece tão mais pequeno, tão menos importante. Estou no fim da terra.

Há centenas de anos atrás, aqueles que percorriam o caminho em direcção a Santiago de Compostela vinham até aqui. Até ao fim da terra. Procuravam encontrar um oceano que não conheciam e levar com eles um pouco desta imensidão.

Acreditavam que a mãe de Jesus tinha desembarcado nas praias desta costa. Que tinha vindo acompanhar o corpo do apóstolo Tiago até ao seu último descanso.

Nessa altura, os que caminhavam centenas de quilómetros, e por vezes até milhares, queriam guardar um pouco da jornada consigo, queriam ter uma prova da sua jornada. E neste mar imenso as conchas (ou vieiras) representavam a conclusão dessa viagem, eram testemunhas simples da jornada.

O caminho era feito por muitas razões, mas acima de tudo por uma vontade interior, uma predisposição, uma fé que encontrariam algo no fim do caminho, ou no próprio caminho.

Agora que chegava aqui, ao fim da terra, que encontrava uma vez mais este encontro de terra e mar encontrei também a vontade de percorrer esse caminho. Não pelo destino do mesmo, mas pela jornada. Porque nesse caminho somos confrontados com o nosso próprio ser. O tempo anda mais devagar e o corpo torna-se o nosso veículo principal.

Mais depressa, ou mais devagar, para passar por aqui ou por ali, não importa. Não importa muito chegar a Santiago ou ir em direcção a outro qualquer lugar. Importa sim esse caminho interior, sem tecnologia, sem pressas e sem pressões.

Estava no alto do monte, em cima da pedra, perto do fim da terra. Será que tudo acaba aqui? Que se renova e recomeça? Não sei...

Mas a vontade nasceu. A vontade de percorrer.

Este jogo de vontades é curioso. Queremos fazer as coisas, mas depois olhando com atenção o que é que descobrimos? Que na realidade estamos sempre a percorrer um caminho. Um caminho que pode não ser de terra, nem de campos de trigo, nem de macieiras, mas sempre um caminho.

Mas ás vezes a distância faz bem, para vermos tudo em perspectiva, para percebermos melhor, para conseguirmos sentir, para nos encontrarmos. Sem pressas, sem pressões.

Não sei, neste instante, do fim da terra, se o meu percurso é este (o de Santiago) ou um outro qualquer. Mas sei que este chama por mim, e eu por ele. Não sei como, nem sei quando, mas chama por mim.