segunda-feira, 5 de setembro de 2005

"Pra que somar se a gente pode dividir"

Neste último fim de semana vivi uma experiência extraordinária. Voltei à Festa do Avante!

Foi bom, mas foi surpreendente. Tanta, mas mesmo tanta gente. Milhares e milhares...

Não costumo gostar de banhos de multidão, do suor na cara, dos encontrões, da falta de espaços para nos sentarmos e até de casas de banho, mas gostei de estar lá. Gostei de participar numa festa de tanta diversidade. Com tanta gente de tanto lado, de tantos feitios, de tantas idades.

O mais próximo daquele espírito com que me deparei foi na Queima das Fitas, em Coimbra, naquele recinto eufórico. Mas aqui era diferente, mais idades, mais gentes, mais diversidade.

Se tivesse que resumir tudo escolheria dois argumentos a favor e dois argumentos contra.

A favor, é surpreendente encarar e participar da organização comunista. Os comboios, as camionetas, as filas, as senhas, os guias, os mapas tudo funciona, ou quase. Tudo claro e fácil, com pessoas pacientes e prestáveis. O espírito do "todos fazem a sua parte" (já iremos ao reverso da medalha), o espírito do "somos todos iguais". A Carvalhesa, os sorrisos, a preguiça e os espaços perto da água. Tudo muito bom.

A favor, é a diversidade. Diversidade de sons: desde o rock, passando pelo tango, até a música clássica. E eram crianças, jovens, adultos e velhos. A beber cerveja ou água, a fumar ou não, mas todos juntos. Diversidade de culturas: os portugueses, os galegos, os moçambicanos, etc. Diversidade de sabores: da sopa da pedra, passando pelo choco frito, e indo para as espetadas em pau de louro. Este encontro é a prova viva de que não precisa existir alta e baixa cultura. Todos podem participar em tudo. E acho que essa é uma das grandes lições da Festa do Avante. (e sim, Xutos e Clã foram demais!!!)

Contra, a “Luta continua”, “Resistência”, são exemplos de frases de ordem que se vêm espalhadas por todo o recinto. Em letras grandes, demasiado grandes. Não ponho em causa a validade histórica das afirmações e a sua importância. Mas neste milénio novo acho que já não há espaço para elas. Acho que chegou a altura de novas frases de ordem, de novas formas de comunicação: “A aprendizagem continua”, “Diálogo sempre”, “Construir em conjunto” ficariam deliciosas em cartazes gigantes e apelariam a um espírito renovado. Ao ver aquela malta nova, toda cheia de símbolos da revolução, com um discurso "camaradizado" deixa-me meio triste. Não que o discurso não tenha valor, é óbvio que tem, mas é preciso um discurso novo, não de resistência, de oposição, mas de construção. E principalmente, que os jovens o queiram para se rebelar acho bom e bonito, que o discurso queira os jovens para parecer mais forte e vivo, é triste e escusado.

Contra, algumas confusões normais da malta aqui desta ilha em que vivemos. Sim, é realmente muito barato (3 dias, 17 euros). É verdade que o trabalho é voluntário, que é tudo para o partido, e que isso tem valor e é importante (quando é feito com convicção). Claro que, como todas as formas de participação doutrinária, há quem acredite e faça, há quem não acredite e faça na mesma, e há quem não acredite, quer faça ou não. No Avante vi muitos não acredito, mas faço (talvez por hábito). Numa barraca fomos muito mal servidos e o senhor do lado de lá respondia ofendido: “Somos voluntários, não recebemos nada”. Está certo senhor, mas nós pagámos, e a decisão de como funcionam, a vossa oferta (digna e meritória) não nos diz respeito, não é nossa. Claro que é normal neste país que isso aconteça, que as pessoas sejam mal servidas, sempre com bons argumentos. Mas, se calhar, a malta comunista poderia fazer a diferença. Mostrar organização, profissionalismo e simpatia... e muita, mas mesmo muita organização.

Resumidamente, foi muito bom, são apenas arestas para limar. Até porque acho que nem a organização esperava o banho de multidão que vi lá, a viver a festa comigo. Sim realmente é muito melhor dividir, do que somar. Mas se o fazem que seja por convicção, é que de outro modo, não vale a pena.

Como Dizia o Poeta

"Quem já passou por esta vida e não viveu
Pode ser mais mas sabe menos do que eu
Porque a vida só se dá pra quem se deu
Pra quem amou, pra quem chorou , pra quem sofreu

Ai quem nunca curtiu uma paixão
Nunca vai ter nada não

Não há mal pior do que a descrença
Mesmo amor que não compensa
É melhor que a solidão
Abre os teus braços meu irmão, deixa cair
Pra que somar se a gente pode dividir
Eu francamente já não quero nem saber
De quem não vai porque tem medo de sofrer

Ai de quem não rasga o coração

Esse não vai ter perdão"

(Toquinho e Vinícius de Moraes)