sexta-feira, 28 de março de 2008

Algodão, Líquido e Bruxas

Tu és o algodão que absorve o líquido com fugacidade, para que depressa seja gozado, quando o fósforo lhe atear o lume.
Queimas pouco a pouco, devagar, para teres mais gozo e assim o apagar, quando o quiseres.
Eu sou o líquido que torna a cena mais macabra. Mulher de unhas negras e perfume sufocante. Ela pega com as suas unhas enormes, um pau afiado para com o lume brincar. Decide apagar e acender quando lhe apetece e eu deixo-me levar, pela sua vontade e tu deixas-te levar pela sua conversa.
O cheiro a queimado é sufocante, tem um quê de perigoso, como o perfume daquela mulher.
O líquido deasparece. E resta o teu pó e a vontade daquela mulher que te olha e pena a mexer-te. Pega num cotonete e mistura os pedaços de algodão, com um restinho de líquido. Pega no isqueiro e acende de novo a fogueira do prazer...
Um dia chegou o fim... Nunca mais ninguém brincou, porque eu desisti, tu és um trapo e ela mais uma vez gozou, fez-se de vítima, só que partiu feliz.
Pedaços... é o que resta de um nada que queria ser tudo. Pedaços de odor obscuro e tom repulsivo. Pedaços de um jogo perigoso que só o mais esperto ganha. Pedaços que nem o amor, nem a inteligência une.
São pedaços de uma história amorosa a três. São pedaços daquela história que eu recordo... Recordo com boa intenção. Não conquistei o meu suave algodão, porque não tive lume que chegasse, nem existia chama, realmente. A culpa não foi da mulher, da bruxa... Mas do feitiço!

Ana Filipa Silva - 08.12.1997