terça-feira, 25 de março de 2008

A justiça num namoro!



Todos dizem o mesmo: “Ainda o amas!? Tudo te faz lembrar o Nelo.”. Eu tenho que aceitar, porque é verdade e, sobretudo, devido a ele ter sido o meu primeiro amor. Engraçado!
Feliz ou infelizmente, fui uma rapariga de muitos rapazes, que se apelidava de conhecedora e imbatível. E, de repente, a vida passa-nos uma rasteira destas! Afinal, o feitiço virou-se contra a feitiçeira.
Como conheci o Nelo? Bem, foi através de uma colega de turma. Onde? Num pub. Naquela data namorava com um dread, e andava com a cabeça nas nuvens. A conversa que tinha com aquele rapaz fazia-me despertar, nem que por minutos, para o antagonismo do que queria fazer e andava a fazer.
Houve desde o primeiro olhar uma atracção que, apesar de eu namorar, foi satisfeita. Sim! Andava com os dois, até que me tive de decidir. Não sei a razão ao certo, mas não tive a coragem de assumir um relacionamento com ele e continuei com o meu namorado.
Passou um ano de telefonemas e convites recusados. Até que, num dia de imensa vulnerabilidade, nos cruzámos e a atracção fez click de novo. Passado alguns dias, namoravamos, agora, sem mais ninguém.
A minha relação com ele sempre tivera muito humor e magia. O namoro não perdera essas qualidades, ganhára outras que fazem dos dois meses passados juntos uma recordação positiva.
Certamente, rirão do sofrimento pelo pouco tempo de namoro, porém só quem amou é que sabe dar valor a todos os minutos. Cruzei, por acaso, com um sentimento novo e tão calmo, tão puro, tão bonito e, depois, tão doloroso. Julgava conhecer tudo, no entanto, só sabia o sabor dos beijos carregados de paixão e outra qualquer sensação, nada semelhante ao carinho suave de um sentimento leve de amor.
Dia após dia, palavra após palavra, acto após acto crescia em mim, a vontade de viver para sempre este sentimento. Tudo era perfeito, pensava que, finalmente, tinha chegado a minha vez, depois de tantos namoros turbulentos e demasiado irracionais.
Três dias a seguir ao segundo mês de aniversário do menino que crescera a partir do dia dois de Fevereiro, que deu início ao nosso namoro, estávamos nós no carro, em pleno acto sexual, quando toca o telemóvel e tudo caiu por terra.
Senti-me suja e usada como um objecto do qual se tira prazer e, depois, com um simples toque sonoro e uma voz feminina do outro lado, se remete para o lixo.
A beleza intocável que vivera todos os dias com ele, tinha o seu fim ali, com a descoberta de que havia outra. Quem me está a ler, estará a dizer que tive a paga. Não! A diferença é que eu sempre fora sincera com ele. Ele sabia que eu namorava, enquanto que, desta vez, ele dizia-me ser a única e a sua eterna namorada. Foi desonesto e constrangedor.
Só que não é isso que me custa. Dói-me fundo, bem profundo, o facto de ainda, passado também dois meses, ainda o amar e estar com a esperança que ele cresça e se torne sincero e honesto. Sinto-me ridícula, porque eu é que fora traída e ainda carrego comigo esta vontade de voltar a estar com ele.
É doloroso sentirmo-nos impotentes, perante situações como esta. Parece que o namoro com ele apagou tudo o que se passou antes e que a minha vida se resume a ele. Acreditem ou não, já não sei como dar-me com outros rapazes! Sinto a frustração de ter tanto para dar e ninguém, particularmente ele, não saber receber. Perco-me em palavras cruas, mas que são tentativas inúteis de deitar para fora este sentimento que já não se aproveita, pois não tem receptor.
Penso nele, como único, esplendoroso e, depressa, me invade a imagem de puto, de traidor e inconsequente. Sou parva! O momento negro é, a maior parte das vezes, clareado pelo amor que sinto por ele.
Que frustração! Queria deitar este sentimento num caixote, como se deita algo que já não tem utilidade, no entanto, não existe qualquer facilidade nisso, afinal, não deixo de ser humana, de ser pessoa.
É difícil ver casais felizes de namorados que se amam. Ele que põe o braço sobre os ombros dela; ele que, agora, também está feliz com outra... Não é, somente por recordar a felicidade que possa ter ao lado de outra, mas também aquela que vivi com ele e que poderia sentir ainda. No entanto, a vida parece que me quer punir, pelas traições sem sentido de culpa que pratiquei, durante várias relações, até de amizade.
Uns chamam-lhe destino, outros dizem que é Deus e outros que é a vida. Eu chamo-lhe justiça. Não tenho forças para sentir desejo de vingança, nem vejo essa acção como madura, só que acredito que será feita justiça e ele reconhecerá o seu erro, com dor ou sem ela. Boa sorte, para vocês!

Ana Filipa Silva - 1997