sexta-feira, 14 de março de 2008

Que belos números as palavras têm...

A hora certa, não sei... O piso era o segundo e a porta não precisava de identificação, pois as portas de biblioteca nós conhecemos de longe. E aquela era perra e de vidro maciço, um pouco como a dizer: “ Só entra quem vier por bem!”. Não deixava passar para fora qualquer tipo de ruído, até porque numa biblioteca, o culto silencioso é uma forma de concentração e de reconhecimento.
Os alunos eram poucos e os professores quase nenhuns. Sozinho estava o sítio das letras, das inúmeras palavras, das ilimitadas frases, enfim dos números dizíveis. O primeiro volume; a página número tal; o início de uma Estação - dia 21 de Março; um momento do dia, marcado por uma hora, a qual contém números e é discreta por versos bonitos que nem os podemos medir; o tempo que passa, porém deixa-se vincar pelo relógio... tempo esse que se reflecte em dias, semanas, meses, anos, décadas e até séculos; o eu que transmite a singularidade, o contrário do nós que já nos remete para o plural, para o mais do que um; a morte, a partida, o nunca e o sempre, a aurora, a noite, o hoje, o amanhã, o ontem, as mãos e os dedos, as árvores com o seu tronco, cópula, ramos e folhas, o acordar e dormir, o levantar e deitar... A dança que é construída por tempos ritmados, com intervalos que também expressão números. Adão e Eva, o primeiro casal ou o macaco, o primeiro Homem. Quando? Aqui! Que belos números têm as palavras...

Meio-dia
Meio-dia. Um canto da praia sem ninguém.
O sol no alto, fundo, enorme, aberto,
Tornou o céu de todo o deus deserto.
A luz cai implacável como um castigo.
Não há fantasmas nem almas,
E o mar imenso solitário e antigo,
Parece bater palmas.


O contar é uma forma de falar, como o enumerar um modo de soletrar. Existe uma relação!
Penso, agora, que seria meio-dia quando atravessei as portas daquele museu. Os livros, nas suas estantes, imponentes olhavam-me. Eu não quis deixá-los sem resposta e, logo, corri para eles, acariciei-os como se fossem estátuas de puro marfim. Eram monumentos abismais, cuja dimensão era infinitamente inexplicável. São testamentos doados à humanidade. Olhem, que é verdade!

É esta a hora...
É esta a hora perfeita em que se cala
O confuso murmurar das gentes
E dentro de nós finalmente fala
A voz grave dos sonhos indolentes.

É esta a hora em que as rosas são as rosas
Que floriram nos jardins persas
Onde Saadi e Hafiz as viram e as amaram.
É esta a hora das vozes misteriosas
Que os meus desejos preferiram e chamaram.
É esta a hora das longas conversas
Das folhas com as folhas unicamente.
É esta a hora em que o tempo é abolido
E nem sequer conheço a minha face.


No meio deles eu queria morrer. Gostava de morar entre as suas páginas, era tão doce dormir sobre os poemas escritos por ti. Quando morrer, quero - exijo - que me embrulhem nas suas folhas. No momento, em que os bichos me quiserem devorar vou estar protegida pela palavras dos deuses de Olimpo que desastres mil tinha pelas mãos de Homero ou, então, permitam-me, ó, bichos danados, que seja a carne da sandes de literatura Platónica. Proibo que me cubram de histórias americanas, como Erich Segal escreve. Isso, não!
Adeus, chegou o meu número!
Requesitei duas obras maravilhosas: O rei dos Lumes, do nosso português Américo Guerreiro de Sousa e Os meus Amores, da autoria de Trindade Coelho. O homem de cabelos encaracolados, pretos tingidos de fios brancos, não perguntou e eu nada disse. A verdade é que nem tenho cartão da biblioteca. Quer dizer, daquela biblioteca. Virei as costas e entrei em luta com as portas. Já cá fora e sem arranhões, andava pelos corredores, como se vaidosa fosse. Desci as escadas e encontrei o Saramago. O primeiro Homem que foi à Lua por sucesso e por inveja, dos outros, claro.
Trimmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmmm, o despertador! 7 horas e 20 vinte minutos. O autocarro é daqui a igual número de minutos e ainda tenho de fazer tanta coisa. Estes sonhos desorganizam-me sempre as ideias. Agora... 8 horas, toque mental para estar já sentada à espera das palavras, que não são poucas, do professor de Língua e Cultura Portuguesa. Duas horas a ouvi-lo!?! Depois...
E assim se vive nos tempos de hoje. Um dia a seguir ao outro, numa rotina que só é aliviada pelas realidades diferentes que surgem nocturnamente.

Nota: Os poemas transcritos são da autora Sophia de Mello Breyner Andresen e retirados do livro Poesia I.